Geral – 11/02/2013 – 09:02
Ainda saía fumaça da boate Kiss quando começou o julgamento da tragédia de Santa Maria. Pela imprensa de São Paulo e Rio, especialistas de plantão e autoridades instantâneas soltando veredictos em tempo real. Os primeiros condenados foram os seguranças da boate.
Esses trogloditas não deixaram os jovens sair – afirmavam os justiceiros a mais de mil quilômetros de distância. Esses autômatos a serviço do capitalismo exigiram que as vítimas pagassem a conta!
Aí surgiu na TV a imagem de um jovem forte, sem camisa, que se arriscara salvando vidas. Quem era esse herói com a bondade estampada no rosto? Era um segurança da boate Kiss…
Os tele-juízes então remendavam suas sentenças, explicando que “nem todos” os seguranças eram vilões. Mas e os que chegaram a barrar os jovens na saída? Tinham condições de saber de imediato o que se passava, sem a visão completa do local? E se algum segurança tivesse morrido tentando salvar vidas, deixando mulher e filhos sofrendo?
Bem, isso fica para depois. O importante para os especialistas remotos é ter culpados no paredão. Afinal, a audiência está indignada e quer se vingar de alguém.
Um dos personagens mais frequentes nas primeiras imagens era o chefe do Corpo de Bombeiros de Santa Maria. Ele explicava os erros da boate, falava de alvará vencido, etc. Assim é o tribunal dos estereótipos. Os seguranças são maus, os bombeiros são bons.
Mas como autorizaram durante anos o funcionamento de uma casa noturna para mil pessoas com uma única e estreita porta? Como manter aberto um local desse porte com extintores de incêndio que, segundo várias testemunhas, não funcionavam?
O tal show com fogos de artifícios em local fechado não era novidade. Houve tempo mais do que suficiente para surgir uma única alma sensata – entre os sócios da casa, funcionários, bombeiros, fiscais, autoridades municipais, jornalistas, músicos e milhares de frequentadores – para dizer o óbvio: isso não pode dar certo.
Fonte: Guilherme Fiúza, ÉPOCA


