01/08/2014 – Atualizado em 01/08/2014
Após picharem prédio de 18 andares, adolescentes estão na mira da polícia, mas não querem peder nenhuma oportunidade de sujar locais difíceis
Por: Diário Digital
A pichação no topo de um prédio de 18 andares, na esquina da Rui Barbosa com a Rachid Neder, no Bairro São Francisco, em Campo Grande, foi amplamente divulgada nos noticiários nesta semana. Por trás daquele feito nas alturas estão dois grupos de pichadores (chamados crews) Demorô e Sinais, responsáveis por boa parte das pichações na cidade. Os jovens (a maioria adolescentes) sujam muros, paredes, casas, prédios e monumentos como forma de protestar e de sentir adrenalina. Muretex, tem 16 anos, e há três integra o Demorô. Vitaines tem 17 anos e há pouco mais de dois se uniu à galera do Sinais para pichar a Capital. Apesar de saber que a Polícia Civil está no encalço, eles não estão dispostos a deixar “nenhuma oportunidade passar.”
Com a garantia de que a identidade seria preservada, os dois adolescentes falaram sem reservas à reportagem do Diário Digital. A pichação no prédio de 18 andares, como era de se supor, contou sim com a ajuda de um morador. “Um amigo nosso que tem simpatia pela pichação facilitou. Não é novidade. De 10 prédios que a gente pichou, em pelo menos dois um morador abriu as portas para o grupo entrar”, comenta Muretex. “Mesmo assim a invasão é a forma mais comum”. Os riscos são constantes, mas não desanimam, pelo contrário, é justamente o que estimula. “A gente picha para protestar e sentir adrenalina”, revela.
Afinal, pichadores protestam contra o quê? “Contra a saúde precária, a educação ruim, a corrupção dos políticos”, responde Muretex. “A sacanagem maior é alguém sair dirigindo bêbado, atropelar as pessoas e nada acontecer com ele. A pichação não prejudica a vida das pessoas”.Porém, ele também chama de “sacanagem” vandalizar muros de pessoas menos favorecidas. “Mas, temos que entender o seguinte, se tivesse tudo certo neste mundo, não haveria protestos.” A palavra Demoro foi escolhida por simbolizar justamente a lentidão do sistema em mudar o que é preciso.
Muretex foi detido duas vezes após ser flagrado pichando a cidade. A última vez, foi no Carnaval deste ano. Ele estava sujando as paredes da Escola Estadual Hércules Maymone, em plena luz do dia, quando foi denunciado por vizinhos. “Os caras estavam me filmando e eu nem percebi”, relembra. Porém, o garoto ficou preso apenas algumas horas na Depac do Centro. “Fugi de lá com algema e tudo”, acrescenta. Os policiais ainda o procuraram na casa dele e conversaram com a mãe. Até hoje, a situação não teve maiores consequências. O rapaz continua estudando e planejando novas pichações.
Vitaines nunca foi preso e se orgulha de já ter conseguido pichar prédios altos no Centro da Capital. “O que queremos é deixar o nosso recado pelo maior tempo possível. Por isso, escolhemos locais que tenham muita visibilidade e que sejam difíceis de apagar. Por vezes, o dono do prédio, não vai querer desembolsar R$ 80 mil para apagar as pichações. Então ele deixa e o nosso registro fica lá”, explica. Conforme Vitaines, as brigas entre grupos de pichadores são comuns. “Um não pode invadir o espaço do outro. Onde já está pichado é território conquistado.”
Os invasores, em sua maioria, conforme Vitaines, são aventureiros da pichação. Jovens que não são da “origem” desta atividade e saem sujando a cidade apenas para se divertir e mostrar que têm coragem de desafiar os outros. A atuação destes grupos complica a vida dos “pichadores profissionais”. A vigilância da polícia aumentou após o vandalismo se proliferar em casas e muros de particulares que registraram boletim de ocorrências. Por ser uma arte de rua transgressora, a pichação não tem regras, mas é possível diferenciar um aventureiro de um “profissional” da pichação. “O certo é você, independente do alvo ser difícil, colocar as letras na régua (retas), simétricas, com espaçamento regular. As pessoas têm que conseguir ler o que você escreveu”, ensina Vitaines.
Além do vandalismo que se espalha pela cidade, os dois confessam também outro crime frequente. Eles furtam a maioria spray e tintas que usam para pichar. “As vezes a gente entra na loja compra um spray e furta muitos outros”, conta. Muretex se lembra de uma vez que apanhou ao furtar tintas. “O cara quase quebrou meus ossos por causa de um frasco pequeno”, relembra. Ele não foi preso, mas ainda tem marcas da pancadaria que teve que suportar.
Pichadores se conhecem e se encontram com freqüência. Muretex e Vitaines citam o audacioso Xarada. O rapaz que já pichou a Morada dos Baís, terminais de ônibus e outros monumentos públicos está preso, mas não por vandalismo. Ele foi detido por suposto envolvimento com tráfico de drogas. “Ele não é traficante. Só fuma uns e repassa para os amigos de vez em quando”, defende Vitaines. A polícia ainda não sabe que o rapaz preso se trata de Xarada. As marcas dele estão espalhadas por toda a cidade. No Parque das Nações Indígenas, território já bastante explorado por vândalos, Xarada deixou pichações caprichadas. O rapaz tem 19 anos e vive sozinho na Capital.
Como forma de pôr fim aos ataques, o Parque das Nações passará a ser vigiado por câmeras de segurança a partir deste mês. Como o Diário Digital já havia antecipado, as imagens serão enviadas diretamente para o sistema da Polícia Civil. A dupla Muretex e Vitaines sabe que os riscos aumentam a cada dia, mas não pretendem abandonar a atividade.
“Minha mãe pergunta todos os dias, quando é que eu vou parar e eu respondo: quando os políticos pararem de roubar”, conta Muretex que, aliás, será pai em breve. Uma moça com quem ele teve um namoro rápido está grávida de dois meses. “Não gostaria que meu filho fosse pichador, se não, ele vai passar por tudo o que eu passei”, afirma. Já Vitaines admite que está dando um tempo a pedido da mãe que está com medo depois que foi divulgada a pichação do prédio de 18 andares. “Por ela, eu realmente faço isso. Mas, não podemos perder boas oportunidades.”
Na verdade, a receita para acabar de vez com as pichações é simples, segundo Muritex. “É só liberar e ninguém vai pichar mais. Acaba a adrenalina. Ninguém vai te perseguir ou te prender. Ou seja, não teria graça nenhuma. Aí acaba tudo.”



