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Parsis tentam manter prática na qual abutres comem cadáveres

Internacional – 10/12/2012 – 10:12

MUMBAI, Índia – Quinze anos depois de os abutres desaparecerem dos céus de Mumbai, a comunidade parsi local pretende construir dois aviários em um de seus locais mais sagrados, para que as aves de rapina possam voltar a devorar cadáveres.

Dinshaw Rus Mehta, presidente da Bombay Parsi Punchayet, disse que, se tudo correr como planejado, até 2014 os abutres poderão voltar a consumir os mortos.

“Sem os abutres, cada vez mais parsis escolhem ser cremados”, disse Mehta.

O plano é o resultado de seis anos de negociações entre os líderes parsis e o governo indiano para recuperar uma prática existente há séculos, que busca evitar que os antigos elementos -ar, terra, fogo e água- sejam poluídos pelo sepultamento ou cremação. Paralelamente, ambos os lados esperam que a iniciativa contribua para reavivar duas espécies de abutre. O governo forneceria a população inicial de aves.

“A maioria dos aviários para abutres precisa gastar enormes quantias para comprar carne, mas para nós isso é grátis, porque os abutres vão se alimentar de corpos humanos, de nós” disse Mehta.

A religião dos parsis, o zoroastrismo, dominou o Irã até ser substituída pelo islamismo. No século 10°, um grande grupo de zoroastristas fugiu para a Índia.

Restam menos de 70 mil parsis, a maioria em Mumbai. Uma das suas propriedades mais valiosas são os 21 hectares no morro de Malabar, um dos bairros mais ricos de Mumbai. No meio disso ficam as três “torres do silêncio”, onde há séculos os parsis depositam seus mortos.

As torres de pedra são auditórios ao ar livre, contendo lajes de mármore em forma de anéis -um anel externo para os homens mortos, um intermediário para mulheres mortas e um anel interno para crianças mortas. Os corpos deixados sobre as lajes eram consumidos em questão de horas pelos abutres da vizinhança.

A Índia já teve até 400 milhões de abutres, uma população que prosperava por causa de um dos maiores rebanhos bovinos do mundo e da proibição do abate do gado. Quando as vacas morriam, eram atacadas pelos abutres, que então deixavam o couro para comerciantes. Mas aí veio o diclofenaco, um analgésico comum. Em 1993, seu uso foi aprovado para o gado na Índia. Logo depois, os abutres começaram a morrer por ingestão excessiva da droga. O uso veterinário do diclofenaco foi posteriormente banido.

Mesmo assim, a população das três espécies diminuiu para poucos milhares.

Desesperados para manter um dos seus mais importantes rituais, os líderes parsis planejam construir os aviários perto das “torres do silêncio”. Eles dizem estar aguardando aprovação formal.

Outra preocupação é se os parsis vão se convencer a parar de usar o diclofenaco. Médicos e familiares precisarão certificar que os corpos levados ao local não receberam diclofenaco três dias antes da morte.

“Há dez anos, tento educar a comunidade para desligar seus celulares antes de entrar nos nossos mais sagrados templos do fogo. Nisso, eu fracassei”, disse Khurshed Dastoor, um dos cinco altos clérigos parsis.

“Acha que a comunidade vai abandonar o diclofenaco em alguns meses?”

Fonte: Folha de São Paulo

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