O vereador Renée Venâncio usou a tribuna livre para fazer apontamentos sobre as mortes de bebês ocorridas no município. As mortes estariam ligadas possivelmente pelo pré-natal “mal feito” nas Unidades Básicas de Saúde do município, a miséria, ignorância e utilização de entorpecentes pelas parturientes.
17/09/2019 15h59
Por: Mirela Coelho
TRÊS LAGOAS (MS) – O Programa Toninha Campos recebeu na manhã desta terça-feira (17), a líder do Grupo Mães Unidas Angelita para discutir e rebater alguns apontamentos que foram levantados pelo vereador Renée Venâncio (PSD), na última terça-feira (10) em uma audiência pública da Câmara de Vereadores de Três Lagoas.
A fala do vereador causou muita revolta e desconforto às mães que perderam seus bebês no Hospital Auxiliadora e em pessoas que são solidárias aos relatos que muitas delas têm descrito em suas páginas nas redes sociais.
Assim, como porta voz dessa dor e, representando o movimento das Mães Unidas, Angelita relatou à Toninha Campos a grande repercussão que o compartilhamento do vídeo do vereador durante sua participação na tribuna teve e o descontentamento dessas mães.
Angelita, rebateu uma série de apontamentos feitos pelo vereador, como a falta de diagnóstico e acompanhamento das mães durante o pré-natal e a realização de exames para detecção de doenças.
Com relação ao comentário – …”fazer um pré-natal bem feito, exames de HIV e sífilis. Muitas dessas mães tem problemas toxicológicos, alguns bebês nascem e morrem após o parto com o fígado dilatado, que é uma marca que a mãe é usuária de drogas. Infelizmente é uma realidade não só brasileira, mas mundial” ´[sic] – vereador Renée Venâncio.
Salientou que o apontamento feito pelo vereador de casos de bebês constatados com hepatomegalia (aumento do fígado) não ter sido previamente diagnosticada, é uma inverdade, pois esse tipo de distúrbio é constatado durante o exame de ultrassom. No caso da mãe Silvia Iris, que perdeu o seu bebê durante o parto, o ultrassom foi realizado e o laudo médico não apontou nenhuma anomalia no bebê.
Angelita expressou o seu descontentamento, pois muitos vereadores não estão tomando cuidado com o que falam ao se pronunciarem na tribuna da Câmara Municipal. Relatou que a generalização quanto às mortes ocorridas no Hospital Auxiliadora terem ocorrido por falta de um pré-natal bem feito, ou pelas mães não terem educação, por estarem na miséria ou até mesmo por serem usuárias de drogas, não condiz com a realidade dos casos relatados.
No caso da Silvia Iris, a mesma não se encaixa em nenhum dos pontos relatados como os principais causadores da morte de bebês. Essa mãe teve todo acompanhamento do pré-natal na Unidade Básica de Saúde do município e no momento mais feliz da vida, perdeu seu bebê durante o parto devido “ter passado da hora do nascimento”.
Outra fala do vereador que chamou atenção foi o momento em que ele “faz uma indicação para que seja implantado em Três Lagoas o projeto similar ao que há em São Paulo“.
Para esse apontamento, Angelita relatou que entregou na Câmara, no dia 1º de agosto, o projeto da Dra. Janaína Pascoal – Projeto de Lei nº 435/2019, para que a Câmara entregasse para as nossas autoridades estaduais, que é o órgão competente para fazer essa alteração, para que a escolha para o tipo de parto seja incluída no nosso sistema de saúde, assim como informações quanto às condições necessárias de atendimento de cada mãe e o seu bebê durante o momento tão esperado.
Essa mesma solicitação realizada pela Mães Unidas, foi encaminhada para o Ministério Público (MP). Neste projeto, todos os relatos das mães que sofreram violência obstétrica ou perderam seus bebês estavam descritos. Em resposta, o MP relatou que há uma lei estadual que trata da questão dos partos e da violência obstétrica – Lei nº 5217 26/06/2018. Essa lei tem descrito toda a orientação e disposição que foi solicitada pelo vereador durante a tribuna.
Frente a essas informações, a entrevistada solicita que os vereadores se informem mais sobre nossas leis municipais, estaduais e federais para que possam analisar e assim poderem checar se realmente elas estão sendo cumpridas. Uma vez observando tais informações e constatações, poderiam utilizar o tempo disponível na tribuna para fiscalizar as leis já em vigor ou acrescentar melhorias as leis do município.
Angelita salientou que todas as orientações e solicitações relatadas na tribuna já foram feitas ao Ministério Público e o mesmo já encaminhou a decisão para a Prefeitura de Três Lagoas e para o Hospital Auxiliadora para que todas as modificações sejam tomadas.
Um ponto importante levantado pela entrevistada é o descaso quanto ao psicológico dessas mães que estão sofrendo. Aponta que os vereadores deveriam se unir e fazer uma solicitação para que essas mães fossem atendidas por psicólogos para que essa dor interminável fosse de alguma forma amenizada.
Ainda, Angelita sugeriu que os vereadores ouvissem as mães, que lessem os relatos de suas perdas, de como ocorreu. Sentirem através das palavras o mínimo da dor que essas mulheres passaram e ainda passam. Que constatassem que essas mulheres não são miseráveis nem ignorantes e não generalizassem os casos.
Relatou ainda que o maior impasse é a falta de diálogo entre instituições. É a falta de respeito para com as determinações e detalhes especificados na ficha da parturiente. Nessa ficha, todo o histórico da mãe está relatado. O médico a cada consulta do pré-natal anota as condições da mãe e do desenvolvimento do bebê. Se pelo menos o cuidado com a leitura e interpretação desses dados fossem seguidos à risca nenhuma mãe com determinação de “parto cesária” teria feito um “parto normal”.
Uma outra vertente levantada pela Angelita foi quanto a instituição destinada a emitir os óbitos dos bebês. Relatou que o hospital foi emissor e ela crê que o Instituto Médico Legal (IML) deveria ter feito a necropsia.
CONFIRA NA ÍNTEGRA A ENTREVISTA DA LÍDER DO MÃES UNIDAS – ANGELITA SOUZA




