Existe uma geração que teve o privilégio de viver experiências que dificilmente serão repetidas. É a geração que hoje passou dos 40 anos. Uma geração que conheceu um mundo sem internet, sem smartphones, sem redes sociais e sem a pressa digital que domina a vida moderna.
Foi a geração que brincou na rua até o anoitecer. Que jogou bola no campinho de terra, soltou pipa, empinou carrinho de rolimã, brincou de esconde-esconde, queimada, pique-pega e polícia e ladrão. A mãe chamava da porta de casa quando o jantar estava pronto, e ninguém precisava mandar uma mensagem para saber onde os filhos estavam.
Foi a geração que gravava músicas da rádio em fitas cassete, rebobinava a fita com uma caneta, esperava o filme ser revelado para descobrir como as fotos tinham ficado e alugava filmes na locadora para assistir com toda a família reunida no sofá. Quem viveu isso sabe que havia uma expectativa que hoje quase não existe mais.
Foi a geração da máquina de datilografia, do telefone de disco, da carta escrita à mão, do orelhão, da agenda de papel, do caderno bem cuidado e da pesquisa feita em bibliotecas. Quando surgia uma dúvida, não bastava fazer uma busca na internet. Era preciso procurar, estudar e ter paciência.
Também foi a geração que viu o mundo mudar diante dos próprios olhos. Assistiu ao nascimento da internet, dos computadores pessoais, dos celulares, do GPS, do PIX, das chamadas de vídeo e da inteligência artificial. Precisou aprender tudo de novo, adaptar-se ao mercado de trabalho e acompanhar uma revolução tecnológica que aconteceu em poucas décadas.
Mas talvez o maior privilégio dessa geração não tenha sido testemunhar essas mudanças. Foi ter vivido uma infância em que as amizades eram presenciais, os aniversários reuniam vizinhos, os domingos eram em família e as conversas aconteciam olhando nos olhos, sem notificações interrompendo cada momento.
Essa geração aprendeu o valor da espera, da palavra dada, do respeito aos mais velhos e da alegria das coisas simples. Descobriu que felicidade não dependia de curtidas, seguidores ou telas, mas de pessoas, histórias e lembranças.
Os jovens de hoje viverão experiências diferentes e construirão suas próprias memórias. Mas quem tem mais de 40 anos guarda um privilégio raro: foi a última geração a conhecer um mundo que nunca mais existirá.
E talvez seja exatamente por isso que, quando essa geração fala da infância, seus olhos brilham. Porque ela não sente saudade apenas de um tempo. Sente saudade de um jeito de viver que o mundo jamais conseguirá reproduzir.


