Município registrou taxa estimada de 19,1 homicídios por 100 mil habitantes e aparece atrás apenas de Campo Grande entre as cidades sul-mato-grossenses analisadas
O município de Três Lagoas aparece entre as cidades sul-mato-grossenses com maiores índices de homicídios no levantamento divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública por meio do Atlas da Violência 2026. No ranking estadual, a cidade aparece como a segunda mais violenta de Mato Grosso do Sul entre os municípios analisados com mais de 100 mil habitantes.
Em um levantamento realizado pelo jornalismo da Rádio Caçula, de acordo com os dados apresentados no relatório, Três Lagoas possui uma taxa estimada de 19,1 homicídios por 100 mil habitantes, com 6 casos registrados, segundo a SEJUSP (Secretaria de Estado de Segurança Pública). O estudo aponta que o município registrou 23 homicídios oficialmente contabilizados, além de quatro casos classificados como “homicídios ocultos”, totalizando 27 mortes estimadas.
Entre as cidades de Mato Grosso do Sul presentes no levantamento, Três Lagoas aparece atrás apenas de Campo Grande, que registrou taxa de 19,5 homicídios por 100 mil habitantes. Já Dourados surge logo atrás, com índice de 18,8.
TRÊS LAGOAS REGISTRA SEQUÊNCIA DE HOMICÍDIOS E CASOS VIOLENTOS EM 2026
O ano de 2026 tem sido marcado por diversos casos de violência em Três Lagoas, incluindo homicídios, feminicídios e execuções investigadas pelas forças de segurança. Somente entre abril e maio, a cidade registrou uma sequência de crimes que mobilizou operações conjuntas das polícias Civil e Militar.
Um dos casos de maior repercussão ocorreu no início de maio, quando Kailayne Mirele Esperidião, de 19 anos, foi assassinada a tiros enquanto trabalhava em uma barraca de lanches na região da Lagoa Maior. O namorado dela, Gabriel dos Santos Souza, de 18 anos, também foi baleado e morreu dias depois no hospital.
Segundo as investigações, criminosos chegaram em uma motocicleta e o atirador simulou um assalto antes de efetuar vários disparos contra o casal. Após a sequência de homicídios registrada naquele período, um suspeito de 27 anos foi preso durante operação conjunta das forças policiais.
Outro crime que chamou atenção aconteceu no bairro Vila Nova, onde Pedro Augusto Otaviano dos Santos, conhecido como “Cabelinho”, foi morto a tiros em frente a uma residência. Durante o ataque, outra pessoa também foi baleada.
A ocorrência fez parte de um fim de semana considerado um dos mais violentos do ano na cidade, com pelo menos quatro pessoas baleadas em apenas 24 horas.
Em fevereiro, a jovem Beatriz Benevides da Silva, de 18 anos, foi vítima de feminicídio em Três Lagoas. Conforme a investigação, ela foi estrangulada dentro do apartamento onde morava. O namorado, Wellington Patrezi Batista Pereira, confessou o crime após se entregar à Polícia Militar.
O caso gerou grande comoção e foi apontado como o quarto feminicídio registrado em Mato Grosso do Sul em 2026 até aquele momento.
Além dos homicídios, a cidade também registrou mortes suspeitas e ocorrências violentas ao longo do ano. Entre elas, o caso de um homem encontrado morto na região do Cinturão Verde, em abril, com indícios de atropelamento.
Apesar da posição preocupante no ranking, o Atlas da Violência aponta que Mato Grosso do Sul registrou queda no número de assassinatos cometidos com armas de fogo. Conforme o estudo, os casos passaram de 308 em 2023 para 276 em 2024, uma redução de 10,4%.
Na comparação entre 2014 e 2024, a retração foi ainda maior. Há dez anos, o Estado contabilizava 358 homicídios cometidos com armas de fogo, número 22,9% superior ao atual. Em âmbito nacional, a queda registrada no período foi de 31,2%.
Mesmo com a redução nos números absolutos, o levantamento mostra que aumentou proporcionalmente a participação das armas de fogo nos assassinatos registrados em Mato Grosso do Sul. Em 2023, 52,7% dos homicídios ocorreram com esse tipo de armamento. Já em 2024, o índice subiu para 53,2%, indicando que mais da metade das mortes violentas no Estado envolveu armas de fogo.
Ainda assim, o percentual sul-mato-grossense permanece abaixo da média nacional, que ficou em 70,1% em 2024, o menor índice registrado na última década no Brasil. Estados do Nordeste lideram as maiores proporções, como Ceará, onde 85,6% dos homicídios ocorreram com armas de fogo, seguido por Paraíba (83,9%), Amapá (83,7%) e Bahia (81,1%).
Em todo o país, foram registrados 29.870 homicídios por arma de fogo em 2024, o equivalente a 14,1 mortes por 100 mil habitantes. O número representa queda de 8,8% em relação ao ano anterior.
O relatório também alerta para o avanço da circulação de armas mais modernas e letais no Brasil. Segundo os pesquisadores, houve crescimento nas apreensões de pistolas semiautomáticas e armamentos de perfil militar entre 2019 e 2023, além do aumento do acesso irregular a armas desviadas do mercado legal.
Outro ponto destacado pelo estudo é a mudança no perfil dos armamentos apreendidos pelas forças de segurança. O uso de revólveres apresentou queda, enquanto aumentou a presença de pistolas semiautomáticas, rifles, submetralhadoras artesanais e armas de origem militar utilizadas por organizações criminosas.
O Atlas ainda aponta preocupação com propostas legislativas que buscam ampliar o acesso às armas de fogo no país. Somente em 2025, foram identificados 53 projetos de lei considerados expansivos, incluindo medidas para ampliar o porte de armas a determinadas categorias profissionais, reduzir custos de aquisição e flexibilizar regras do Estatuto do Desarmamento.
Segundo os pesquisadores responsáveis pelo levantamento, os dados indicam relação direta entre o aumento da circulação de armas de fogo e a elevação das taxas de homicídio em diferentes períodos analisados no Brasil.


