Marcos Martinelle falou sobre educação sexual, saúde mental, sexualidade na terceira idade, prevenção de ISTs e a importância de buscar orientação profissional
A saúde sexual não se resume ao ato sexual. Ela está relacionada à saúde física e mental, aos relacionamentos, à afetividade, à intimidade, à autoestima e à forma como cada pessoa compreende e vivencia a própria sexualidade. O tema foi discutido nesta sexta-feira (4), Dia Mundial da Saúde Sexual, durante o Jornal da Caçula, da Caçula FM 96,9, em entrevista com o psicólogo e sexólogo Marcos Martinelle.
De maneira descontraída e sem tabus, Martinelle explicou que a sexualidade acompanha o indivíduo durante toda a vida, desde o nascimento até a velhice. Segundo ele, é importante diferenciar sexualidade de sexo: enquanto a sexualidade envolve aspectos da personalidade, afetividade, relacionamentos, intimidade e identidade, o sexo é apenas uma das dimensões desse universo.
“A gente tem sexualidade desde o nascimento até a velhice”, explicou o profissional durante a entrevista.
TABUS
Um dos principais pontos levantados na conversa foi a necessidade de ampliar a educação sexual, principalmente entre crianças e adolescentes. Para Martinelle, a ausência de informação não impede que os jovens tenham contato com o assunto, já que músicas, redes sociais, televisão e conteúdos disponíveis na internet também influenciam a maneira como eles compreendem a sexualidade.
O problema, segundo ele, é que muitas dessas informações podem ser distorcidas ou carregadas de julgamentos morais.
O especialista defendeu uma educação baseada em informação, responsabilidade e respeito, em vez de medo e repressão. Ele também destacou que conversar sobre sexualidade com crianças não significa ensinar a fazer sexo, mas utilizar uma linguagem adequada para cada fase do desenvolvimento.
“Eu nunca ensino a fazer sexo”, ressaltou.
Na adolescência, a orientação deve incluir temas como prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), uso correto de preservativos, consentimento, responsabilidade e compreensão do próprio corpo.
SAÚDE SEXUAL E SAÚDE MENTAL
Durante a entrevista, o psicólogo também abordou a relação entre sexualidade e saúde mental. Ele explicou que pessoas que enfrentam preconceito, dificuldades de aceitação ou conflitos relacionados à orientação sexual e à identidade de gênero podem vivenciar sofrimento psicológico.
Martinelle citou o conceito de “estresse de minoria”, relacionado às pressões enfrentadas por grupos que não se enquadram nas expectativas predominantes da sociedade.
Para ele, o problema não está na pessoa, mas muitas vezes na forma como a sociedade estabelece padrões sobre como ela deveria viver.
A existência de uma rede de apoio e, quando necessário, o acompanhamento de profissionais especializados pode ajudar no processo de autoconhecimento e na construção de uma relação mais saudável consigo mesmo e com os outros.
DEPOIS DOS 60
Outro assunto destacado foi a sexualidade na terceira idade. Martinelle reforçou que envelhecer não significa perder o desejo, a capacidade de sentir prazer ou a necessidade de afeto e intimidade.
Segundo ele, o corpo passa por mudanças e a sexualidade pode precisar de adaptações. Questões hormonais, menopausa, doenças crônicas, depressão e determinados medicamentos podem interferir na resposta sexual.
Nesses casos, o acompanhamento médico é importante para avaliar as condições físicas, enquanto o acompanhamento psicológico ou sexológico pode contribuir para trabalhar aspectos emocionais, relacionais e comportamentais.
O especialista também chamou atenção para a sexualidade feminina e para os efeitos de décadas de uma educação sexual marcada pela repressão.
“A questão é se permitir, se colocar nesse lugar de entender que o teu corpo é um lugar erógeno e que todo corpo tem a possibilidade de vivenciar prazer”, afirmou.
ISTs NA TERCEIRA IDADE
A prevenção das infecções sexualmente transmissíveis foi outro destaque da entrevista. Martinelle alertou que o risco de ISTs não desaparece com a idade e que adolescentes e pessoas mais velhas também precisam ter acesso à informação e aos métodos de prevenção.
Ele explicou ainda a diferença entre PrEP e PEP, estratégias de prevenção ao HIV, e destacou que esses recursos não substituem o preservativo na prevenção de outras ISTs, como sífilis, gonorreia e herpes.
O profissional reforçou que procurar serviços de saúde para realizar testes e buscar métodos de prevenção não deve ser motivo de vergonha, mas uma atitude de cuidado.
TRAUMAS
Uma das ouvintes, identificada como Cléo, contou que está divorciada há mais de uma década e sente dificuldade em se permitir gostar ou se aproximar de alguém. Ela questionou se experiências negativas do passado poderiam estar relacionadas à dificuldade de estabelecer novos vínculos.
Martinelle explicou que experiências traumáticas podem, de fato, influenciar a maneira como uma pessoa se relaciona. Ele recomendou olhar para as próprias crenças e permitir-se avançar gradualmente, sem a necessidade de pensar imediatamente em um relacionamento definitivo.
O especialista também ressaltou que pessoas que passaram por traumas sexuais podem buscar acompanhamento psicológico e sexológico, especialmente quando percebem que essas experiências continuam interferindo na vida adulta.
QUANDO PROCURAR UM SEXÓLOGO?
De acordo com Martinelle, não é necessário esperar que um problema se torne grave para procurar ajuda. Questões relacionadas à autoestima, conflitos no relacionamento, perda de desejo, dificuldades sexuais, autoconhecimento e experiências traumáticas podem ser motivos para buscar orientação profissional.
Ele também destacou a possibilidade de acompanhamento de casais que enfrentam diferenças no nível de desejo sexual.
Segundo o sexólogo, não existe uma frequência “correta” de relações sexuais que sirva para todos os casais. O importante é que os parceiros conversem, compreendam as necessidades um do outro e encontrem acordos que façam sentido para a relação.
A entrevista também abordou a diferença entre desejo espontâneo e desejo responsivo, ressaltando que a comunicação entre os parceiros é fundamental para compreender a dinâmica sexual do casal.
INFORMAÇÃO E QUALIDADE DE VIDA
Ao final da conversa, Martinelle reforçou que falar sobre sexualidade de maneira responsável é uma forma de promover saúde e qualidade de vida.
Para ele, escolas, empresas, profissionais de saúde e famílias precisam contribuir para que informações confiáveis estejam disponíveis, especialmente em um cenário em que crianças e adolescentes têm acesso cada vez mais fácil a conteúdos sobre sexualidade na internet.
A entrevista foi realizada durante o Jornal da Caçula, nesta sexta-feira (4), na Caçula FM 96,9, e trouxe ao público uma discussão ampla sobre saúde sexual, prevenção, relacionamentos, autoestima, saúde mental e sexualidade ao longo da vida.
Martinelle também informou que produz conteúdos sobre sexo e sexualidade em suas redes sociais (@marcoscmartinelle), buscando abordar o tema de maneira acessível, descontraída e informativa.


