Geral – 07/08/2012 – 13:08
Antes do amanhecer de segunda-feira, Mahmoud foi retirado por guardas de sua cela. Suas mãos foram amarradas, seus olhos vendados e foi levado de carro a um terreno abandonado. Ali, foi colocado em linha com outros 10 prisioneiros. Os guardas então sacaram suas armas e abriram fogo.
“A primeira bala atingiu meu peito, outra atingiu meu pé e outra a cabeça. Assim que eu fui atingido, pensei: ‘estou morto'”, disse à agência AP o jovem de 21 anos, o único sobrevivente de um novo massacre na cidade síria de Aleppo.
Mahmoud relatou a sua terrível experiência à AP poucas horas após ela acontecer, um raro relato pessoal e detalhado de um dos constantes massacres que ocorrem em meio à onda de violência na Síria, que já deixou mais de 19 mil mortos em 17 meses de confrontos entre revolucionários e o regime do presidente Bashar al-Assad.
Com dificuldades para falar, ele foi entrevistado em um hospital improvisado pelos rebeldes em um salão para casamentos em Anadan, cidade localizada 20 km ao norte de Aleppo. Vinhas de plástico e luzes coloridas adornavam o salão enegrecido, que ainda contava com duas cadeiras de veludo vermelhas que noivos e noivas usavam para se sentar antes das celebrações. Bandagens cobriam pés, cabeça e peito de Mahmoud.
O jovem deu apenas o seu primeiro nome para proteger sua família, que ainda vive na área. Apesar de a história não ter sido confirmada de forma independente pela AP, seus ferimentos, o depoimento de pessoas que o encontraram e os corpos de seus colegas mortos corroboram com a sua versão: a história de 10 homens mortos, alguns deles com escassos laços com os rebeldes que querem derrubar o regime Assad.
Desde o início da revolta, em março de 2011, Aleppo, uma cidade com cerca de 4 milhões de habitantes, havia conseguido se manter praticamente alheia aos combates e era considerada um reduto do regime, uma vez que considerava-se que sua rica classe comerciante e as diversas comunidades de minorias que ali vivem temiam que suas situações piorassem com a queda de Assad.
No entanto, nas últimas duas semanas, rebeldes vêm forçando a entrada em bairros, confrontando forças de segurança e atacando delegacias em um esforço para “libertar” a cidade. A mídia estatal Síria afirma que o Exército vem se preparando para uma “batalha decisiva”, enquanto ativistas de oposição relatam um crescente número de tropas e tanques nos arredores da cidade.
Foi em meio dessa tensão que Mahmoud, um palestino residente em Aleppo, viu seu destino ir de encontro com as autoridades sírias. Na quinta-feira, diz o jovem, ele e um amigo foram coletar o pagamento na fábrica em que trabalham e ouviram o som de confrontos nas proximidades. Rapidamente, oito homens vestidos em trajes civis apareceram e requisitaram identidades e telefones celulares.
No telefone de Mahmoud, eles encontraram vídeos de manifestações contra o governo e mensagens enviadas a rebeldes do Exército Livre Sírio – grupo armado formados por militares desertores – pedindo que Alá os protegesse e os fizesse vitoriosos. Os dois foram jogados no porta-malas de um carro e levados para um lixão, onde foram vendados, amarrados e espancados com bastões e pedras até serem levados para um prédio das forças de segurança.
Mahmoud conta ter sido jogado em uma cela lotada com outros 12 homens. Todos os dias, alguns eram levados e novos chegavam. “Nós permanecemos lá por quatro dias e eles nos deram água apenas uma vez. Nunca fomos alimentados”, diz o palestino. “Nunca nos perguntavam nada. Todo o dia era surra, surra, surra”.
Antes do amanhecer de segunda-feira, os guardas retiraram Mahmoud e dez outros homens de suas celas e lhes disseram que iriam ver um juiz. Eles foram amarrados pelos pulsos, vendados e levados ao bairro Khaldiyeh, em Aleppo, onde foram colocados em fila sobre um chão de pedra. “Eles nos fizeram sentar um do lado do outro. ‘Você aqui, você aqui, você aqui’. Então cada um dos guardas sacou uma arma e o tiroteio começou”, relata.
Mahmoud foi atingido três vezes. Balas perfuraram seu peito e um de seus pés. Outra arranhou seu crânio. Minutos depois o silêncio retornou e ele percebeu que estava vivo. “Eu respirei e disse shehada”, disse o jovem, referindo-se a declaração de fé muçulmana em que o fiel pede para ser colocado ao lado de Alá. “Eu tentei me levantar, mas comecei a gritar porque sangue estava saindo de mim”.
Ele esfregou sua cara na pedra para remover a venda e engatinhou até um ponto onde moradores da área o encontraram. Entre eles, estava um eletricista de 22 anos que diz ter ouvido tiros na manhã de segunda-feira e se preocupado, uma vez que havia encontrado seis corpos naquele mesmo local um dia antes. Ele mostrou vídeos das vítimas que fez com seu celular. Corpos empilhados, cobertos de sangue, alguns com grandes marcas de contusões que pareciam ser fruto de espancamentos. Todos teriam sido mortos a tiros.
Enquanto Mahmoud falava, segundo a agência AP, uma caminhonete estacionou em frente ao hospital improvisado com os corpos dos nove homens mortos na segunda-feira. O corpo da décima vítima havia sido levado pela família após ser reconhecido. Eles ainda estavam amarrados e dois deles permaneciam vendados. Dois tinham marcas de balas na cabeça e outros tinham sangue no rosto, no peito e saindo pelas orelhas. Nenhum usava sapatos e não tinham identidades com eles.
Os assassinatos convenceram um morador de Khaldiyeh, um bairro de classe operária que até então pouco fora palco da violência, de que a vizinhança precisava de armas. “Nós queremos que o Exército Livre venha ao nosso bairro e nos proteja”, disse o homem, que ajudou a recolher os corpos das vítimas, mas não quis se identificar. “Se não puderem, que entreguem armas para que possamos nos defender”.
Fonte: Terra


