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Humanos são naturalmente pacíficos, afirma Frans de Waal

Geral – 18/05/2012 – 12:05

Primatologista defende que primatas nunca precisaram recorrer à razão para manter a violência sob controle. “O passado violento é apenas uma suposição”

A guerra não está no feitio natural do ser humano, como defendia o filósofo inglês Thomas Hobbes no século XVII, um dos pais da política moderna e, mais recentemente, o psicólogo canadense Steven Pinker. O normal da nossa espécie é justamente o contrário: nós seríamos naturalmente pacíficos.

“Se realmente houvesse uma base genética para nossa participação em combates mortais, deveríamos praticá-los de bom grado”, escreve Frans de Waal, holandês especialista em comportamento animal, psicologia e primatologia, em um artigo que será publicado nesta sexta-feira na revista Science.

Waal ataca uma das suposições de Pinker no livro The Better Angels of Our Nature – Why Violence Has Declined (Editora Viking, 802 páginas, sem edição brasileira). Para o canadense, os antepassados viviam em guerra e a violência foi diminuindo lentamente com o amadurecimento do conhecimento humano, principalmente após o século XVI, com a ‘Era da Razão’.

Waal contesta essa visão. “A ideia de que vivemos um passado violento é apenas uma suposição”, disse em entrevista a VEJA. O comportamento pacífico sempre esteve presente como motor das relações sociais de antigamente em primatas humanos e não humanos. “Os primatas nunca recorreram ao iluminismo para manter a violência sob controle.”

O primatólogo apresenta sua defesa com base em dois argumentos. O primeiro diz respeito à falta de provas científicas para afirmar que os antepassados do homem viviam em um estado de guerra, além de diversos estudos que defendem justamente o contrário.

“Os caçadores-coletores comercializavam, realizavam casamentos com grupos distintos e permitiam a passagem de estranhos em seus territórios”, escreve Waal. “Eram frequentemente pacíficos e algumas vezes violentos”. Embora existam evidências de que assassinatos isolados ocorriam há centenas de milhares de anos, não há sinais de guerra antes da Revolução Agrícola, há 12.000 anos.

Arqueólogos nunca encontraram, por exemplo, cemitérios com um grande número de armas atravessando esqueletos antes da Revolução Agrícola. “Isso não quer dizer que a guerra não existia nessa época, mas significa que a suposição costumeira de que nossos ancestrais travaram longas guerras e passavam por períodos breves de paz carece de respaldo arqueológico”, escreve de Waal.

Empatia — O segundo argumento de Waal diz respeito à comparação que frequentemente se faz entre o comportamento de chimpanzés e bonobos para justificar a naturalidade da violência humana. O primatólogo defende que, embora os chimpanzés tenham comportamento por vezes agressivo, os bonobos são marcados por uma convivência relativamente pacífica e altamente empática.

“Agressão fatal entre bonobos nunca foi observada e algumas vezes grupos diferentes se misturam em atividades sexuais ou lúdicas”, argumenta. “Esses primatas podem ser os mais próximos do ancestral comum entre chimpanzés e humanos do que qualquer chimpanzé vivo.”

Avanços científicos nos últimos 10 anos começaram a questionar a visão de que a vida animal, e consequentemente a natureza humana, é baseada na competição desenfreada que leva ao estado de guerra. Depois da descoberta de que chimpanzés se beijam e abraçam frequentemente depois de uma briga dentro do grupo, inúmeros estudos documentaram a “reconciliação” em primatas não humanos e outros animais.

“A reconciliação é um mecanismo social comum que seria supérfluo se a vida social fosse regida inteiramente pela dominação e competição”, diz o pesquisador.

A paz também traz benefícios para o indivíduo. “Pessoas relatam uma sensação de recompensa após fazerem algo bom e mostram ativação de regiões relacionadas à recompensa no cérebro quando isso acontece”, escreve o especialista. “Não sabemos se isso ocorre com outros primatas e é importante que seja investigado”.

Waal finaliza a análise dizendo que o estudo da empatia pode ser a única saída para lidar com a guerra. “Sabemos que ela pode ser ativada por seres de outras espécies”, referindo-se, por exemplo, a quando humanos salvam uma baleia encalhada. Não fosse a empatia por todas as formas de vida, soldados não pensariam duas vezes antes de matar nem voltariam do campo de batalha com problemas psicológicos. “Trata-se de um grande desafio para um mundo que deseja integrar uma multitude de grupos étnicos e nações.”

Fonte: Veja / Fuse/Thinkstock

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