Ministro Marcos Pontes anuncia que droga teve 94 % de eficácia in vitro. Agora, serão realizados testes em humanos internados por coronavírus
17/04/2020 12h54
Por: Redação com informações do site Veja
BRASIL – O Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações anunciou nesta quarta-feira, 15, a realização de testes de um “remédio promissor”, cujo nome não foi revelado, que pode ser eficaz no combate ao coronavírus. De acordo com o ministro Marcos Pontes, a droga já foi testada in vitro e demonstrou 94% de eficácia em ensaios com células infectadas pela Covid-19.
No mesmo dia, o ex-Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou durante entrevista coletiva que o medicamento citado por Pontes tratava-se de um vermífugo. Além disso, ressaltou que um remédio apresentar bom resultado em laboratório não garante que ele terá efetividade em testes realizados em seres humanos.
Marcos Pontes informou que o medicamento será analisado em uma fase de testes clínicos que deve durar um mês, com um grupo de 500 pacientes internados por coronavírus. “Temos uma esperança boa. A grande probabilidade é que esse negócio funcione bem.”
Segundo o ministro, o medicamento desenvolvido por cientistas brasileiros tem formulação pediátrica e preço acessível nas farmácias. “Esse remédio tem muito pouco efeito colateral e, portanto, pode ser empregado em uma grande faixa da população.” Entre os efeitos colaterais há: cólica, diarreia, náusea, vômito e dor de cabeça.
Pontes afirmou que não menciona o nome da droga “para evitar uma correria em torno de um medicamento sem ter certeza de que ele irá funcionar.”
Início das pesquisas
A partir da próxima semana, o hospital privado Vera Cruz, na cidade de Campinas, no interior e São Paulo, encampará uma pesquisa com cinquenta pacientes infectados por Covid-19. Lá, o teste será realizado em homens e mulheres acima de 18 anos em estado clínico “não crítico” da doença. A internação não poderá ter ocorrido há mais de 36 horas e o infectado deve apresentar insuficiência respiratória (com necessidade do uso de ventiladores, ou não). Transplantados, grávidas e lactantes estarão fora do estudo. Há também restrições para pacientes com problemas hepáticos ou renais, entre outras questões de saúde relacionadas a doenças virais. O encerramento da pesquisa está previsto para o mês de setembro.
O pesquisador responsável pelo trabalho é Florentino Cardoso, ex-presidente da Associação Médica Brasileira, e terá coordenação geral dos infectologistas Sergio Cimerman, diretor da Sociedade Brasileira de Infectologia, e Ricardo Diaz, da Unifesp.
Na metodologia, cada paciente passará por ciclos de 21 dias de estudo. O remédio será ministrado em duas doses por 7 dias e o acompanhamento ocorrerá por mais catorze dias. O estudo será custeado pelo laboratório Farmoquimica que desenvolve a droga. Metade do grupo, no entanto, receberá um comprimido placebo — a decisão será feita por meio de sorteio, sem chance de que o paciente ou o médico escolham a opção desejada.
Controle da Anvisa
Para evitar uma corrida às farmácias como ocorreu no caso da cloroquina e da hidroxicloroquina, outros remédios utilizados para pesquisas acerca de tratamentos eficazes contra a Covid-19, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou que os medicamentos passem a ter venda controlada mediante apresentação de receita médica. O mesmo, vale dizer, ocorreu com a cloroquina e a hidroxicloroquina.
Especialistas pedem cautela
Leonardo Weissmann, infectologista do Instituto Emílio Ribas e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia explica que “funcionar in vitro não significa obrigatoriamente que funcionará em humanos. É bem comum que os resultados sejam diferentes.” O pneumologista Elie Fiss, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, lembra que outros medicamentos vêm sendo testados em laboratório, ainda sem comprovações de sua eficácia em humanos.
“Da mesma maneira que a cloroquina (citada constantemente pelo presidente Jair Bolsonaro), ou a ivermectina (um remédio contra piolho testado na Austrália), esse remédio precisa repetir os bons resultados em humanos. Normalmente, deveriam ser feitos testes em animais antes de partir para humanos, mas como estamos correndo contra o tempo diante de uma pandemia, o processo foi acelerado.”
Ambos criticam o fato de o nome do medicamento não ter sido revelado. Segundo Leonardo Weissmann, isso traz insegurança para o paciente que será testado. “Não sabemos se os danos colaterais podem ser maiores que os danos da doença. A questão da segurança deve ser obrigatoriamente levada em consideração.”, diz. “Tomara que dê certo, nossa torcida é sempre por isso, mas por enquanto estamos opinando no escuro”, completa Elie Fiss.



