Denúncia contra 23 pessoas aponta esquema que teria desviado mais de meia tonelada de entorpecentes apreendidos. Ministério Público também solicita perda de cargos públicos e confisco de bens.
O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) pediu à Justiça a condenação de 23 pessoas denunciadas na Operação Infiltrados, investigação que apura um suposto esquema de desvio de drogas apreendidas pelas forças de segurança para posterior revenda a traficantes. Entre os pedidos apresentados estão o pagamento de R$ 10 milhões por danos morais coletivos, a perda dos cargos públicos de agentes envolvidos e o confisco de dinheiro, veículos e imóveis relacionados ao caso.
A denúncia foi apresentada pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) em 9 de outubro de 2026 e possui 490 páginas. O documento foi encaminhado à 2ª Vara Criminal de Campo Grande e reúne acusações contra policiais e outros suspeitos de integrar uma organização criminosa que teria atuado entre 2021 e 2026.
Segundo o Ministério Público, mais de meia tonelada de drogas teria sido desviada de apreensões e posteriormente devolvida ao mercado ilegal. As acusações ainda dependem de análise judicial, e os denunciados têm direito à ampla defesa e à presunção de inocência.
Delegado e policiais estão entre os denunciados
Entre os principais nomes citados na investigação está o delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, que chefiou a Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar) até fevereiro de 2026. Conforme a denúncia, ele teria utilizado sua posição de comando para facilitar as atividades do grupo.
O pedido de perda de cargos públicos alcança o delegado, oito policiais civis e um policial penal. Entre os agentes citados estão Douglas Tobias, Luiz Carlos de Souza, Marcos André Santos Chaves, Nelson Ricardo Barros de Oliveira, Neverson Vieira de Araújo, Nilton Cesar Sales dos Santos, Roberto Palmeira da Silva, Augusto Torres Galvão Florindo e Vitor Ribeiro Venâncio dos Santos.
De acordo com o Ministério Público, as condutas atribuídas aos agentes seriam incompatíveis com a permanência nos quadros das instituições de segurança pública. A decisão sobre eventual perda dos cargos, porém, depende do andamento do processo e das determinações judiciais aplicáveis.
Como funcionaria o esquema investigado
De acordo com o Gaeco, o grupo utilizaria duas estratégias principais para desviar os entorpecentes: deixar de registrar oficialmente parte das drogas apreendidas ou retirar substâncias diretamente dos depósitos policiais.
Após o desvio, os carregamentos seriam repassados a traficantes responsáveis pela comercialização. A investigação aponta divisão de tarefas entre agentes públicos, intermediários, pessoas encarregadas da venda das drogas e participantes responsáveis pela movimentação financeira.
Lucas da Silva dos Santos, conhecido como “LK”, é apontado na denúncia como um dos responsáveis por negociar os carregamentos desviados e distribuir valores aos participantes.
A acusação também menciona suspeitas de recebimento de vantagens indevidas, utilização de informações restritas e ocultação de recursos provenientes do tráfico.
Carga de cocaína de 643 quilos está entre os episódios investigados
Um dos episódios destacados em reportagens sobre a investigação envolve uma apreensão realizada em 21 de maio de 2024, no município de Bela Vista, na fronteira com o Paraguai.
Na ocasião, a Denar registrou oficialmente a apreensão de 643 quilos de cocaína, carga avaliada em aproximadamente R$ 15 milhões.
Segundo informações atribuídas à investigação, a quantidade original teria chegado a cerca de uma tonelada, levantando a suspeita de que aproximadamente 400 quilos tenham sido desviados antes do registro oficial.
O Gaeco também analisou movimentações financeiras posteriores à apreensão e conversas atribuídas aos investigados. Esses elementos são apresentados pela acusação como indícios de possível desvio e negociação de entorpecentes.
Ministério Público pede indenização de R$ 10 milhões
O pedido de indenização por danos morais coletivos é fundamentado nos prejuízos que, segundo os promotores, teriam sido causados à sociedade e à administração pública.
A acusação sustenta que o suposto esquema teria comprometido a confiança da população nas instituições de segurança, uma vez que drogas apreendidas para combater o tráfico poderiam ter sido devolvidas ao mercado ilegal por pessoas responsáveis justamente por combatê-lo.
Além da indenização, o MPMS solicita o confisco de valores, veículos e imóveis que possam estar relacionados às atividades investigadas.
Entre os bens mencionados está uma residência no condomínio Alphaville 1, em Campo Grande, atribuída ao delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa.
A eventual perda desses bens depende de decisão judicial e da comprovação dos vínculos apontados na investigação.
Patrimônio do delegado também é questionado
Outro ponto abordado em reportagens sobre a denúncia é a evolução patrimonial do delegado.
Segundo informações divulgadas a partir dos documentos da investigação, Hoffman teria declarado patrimônio de R$ 100 mil no final de 2023. Na declaração referente ao ano-calendário de 2025, apresentada em 2026, o valor informado teria chegado a R$ 1,2 milhão.
O Ministério Público também aponta despesas superiores a R$ 196 mil com eletrodomésticos em 2025 e questiona a compatibilidade dos valores com os rendimentos considerados lícitos.
A denúncia menciona ainda um empréstimo de R$ 750 mil que, na avaliação dos investigadores, pode ter sido utilizado para justificar parte do crescimento patrimonial. Essas informações integram as suspeitas apresentadas pelo órgão acusador e não representam, por si só, uma conclusão definitiva sobre a origem dos recursos.
Operação Infiltrados foi deflagrada em setembro
A Operação Infiltrados foi deflagrada pelo Gaeco em 24 de setembro de 2026, com diligências em Campo Grande, Dourados e Terenos.
A investigação começou em outubro de 2025, a partir de elementos identificados durante as operações Traquetos e Blindspot. Na fase ostensiva, foram cumpridos mandados de prisão preventiva, prisão temporária e busca e apreensão.
O caso reúne suspeitas de organização criminosa, tráfico de drogas, corrupção, lavagem de dinheiro, peculato e violação de sigilo funcional, conforme a participação atribuída individualmente aos denunciados.
Dois policiais militares também são mencionados na investigação, mas, segundo as informações divulgadas, o Ministério Público pretende apresentar a acusação contra eles perante a Justiça Militar.
Processo ainda depende de análise da Justiça
Com a apresentação da denúncia, o Ministério Público pede que a Justiça receba formalmente a acusação, dê andamento ao processo e, ao final, condene os envolvidos pelos crimes atribuídos a cada um.
Até que haja decisão judicial definitiva, as acusações permanecem no campo processual e devem ser tratadas como alegações do órgão responsável pela investigação e pela acusação.


