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domingo, 8 de fevereiro, 2026

Fevereiro Laranja alerta para desigualdades no diagnóstico e tratamento da leucemia no Brasil

Apesar dos avanços médicos, subdiagnóstico, acesso desigual e demora no atendimento ainda impactam a sobrevida de pacientes

Fevereiro é dedicado à conscientização sobre a leucemia, um grupo de cânceres do sangue que, mesmo diante dos avanços científicos, ainda expõe profundas desigualdades no sistema de saúde brasileiro. Dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) apontam que o Brasil deve registrar cerca de 11.540 novos casos de leucemia por ano no triênio 2023–2025, dentro de um cenário mais amplo de aproximadamente 704 mil novos casos de câncer anuais no país.

Especialistas, no entanto, alertam que esses números não refletem integralmente a realidade. Em regiões com menor infraestrutura de saúde, como o Norte e parte do Nordeste, há fortes indícios de subdiagnóstico, o que acaba mascarando a real dimensão da doença.

“Na prática clínica, ainda vemos muitos pacientes chegando aos serviços especializados com a doença em estágio avançado. Nesses casos, perde-se uma janela importante, quando as intervenções seriam menos agressivas e as chances de sucesso, maiores”, afirma o hematologista Abel Costa, da Hemodoctor. “Na leucemia, dias e até horas fazem diferença”, completa.

A incidência média estimada no país é de 5,67 casos por 100 mil homens e 4,50 por 100 mil mulheres, mas a distribuição é desigual. O Sudeste concentra cerca de 5.610 novos casos por ano, seguido pelo Sul, com 2.180. Já o Norte registra apenas 650 casos anuais, número considerado artificialmente baixo por especialistas, devido à escassez de hematologistas e à menor oferta de exames como imunofenotipagem e citogenética.

Segundo o hematologista Lucyo Diniz, da Hemodoctor, o problema começa na atenção primária.
“Muitas vezes, o hemograma já traz sinais claros de alerta, mas eles não são valorizados a tempo. Isso atrasa o encaminhamento ao especialista e impacta diretamente a sobrevida do paciente”, explica.

Essa desigualdade contribui para um dado preocupante: cerca de 23% dos óbitos por leucemia no Brasil ainda são classificados como “leucemias não especificadas”, reflexo direto das limitações diagnósticas.

As leucemias apresentam comportamentos clínicos variados. A Leucemia Mieloide Aguda (LMA) é a mais agressiva e responde por 36% das mortes pela doença no país, com crescimento médio anual de 0,8% na mortalidade, especialmente entre pessoas acima de 50 anos.

Já a Leucemia Linfocítica Aguda (LLA), mais comum em crianças, pode atingir taxas de cura superiores a 80% quando diagnosticada precocemente. No Brasil, porém, a sobrevida em cinco anos ainda é de cerca de 68%, abaixo dos índices de países de alta renda.

“O que diferencia esses cenários não é a falta de conhecimento médico, mas o acesso. Quando o diagnóstico é precoce e o tratamento começa rapidamente, os resultados mudam de forma radical”, destaca Lucyo Diniz.

A Leucemia Mieloide Crônica (LMC) representa um contraponto positivo, com queda anual de 3,2% na mortalidade graças às terapias-alvo. Ainda assim, episódios recentes de desabastecimento desses medicamentos no SUS acenderam um sinal de alerta.

No Brasil, 58% dos pacientes oncológicos iniciam o tratamento em estágio avançado. No caso das leucemias, sintomas iniciais inespecíficos — como fadiga, infecções recorrentes e sangramentos — aliados à demora na realização de exames básicos dificultam o diagnóstico precoce.

“O hemograma é simples, barato e amplamente disponível. O desafio é transformar esses dados laboratoriais em decisões clínicas mais rápidas e assertivas”, afirma Raphael Saraiva, CEO da Hemodoctor.

Para Saraiva, enfrentar as desigualdades passa pela reorganização dos fluxos de atendimento e pela ampliação da capacidade diagnóstica do sistema de saúde.
“A leucemia escancara um problema estrutural: a distância entre o exame e a decisão clínica. Quando apoiamos o médico na leitura precoce desses sinais, reduzimos atrasos, evitamos complicações e salvamos vidas”, ressalta.

Segundo ele, o Fevereiro Laranja precisa ir além da conscientização.
“Não se trata apenas de falar sobre câncer, mas de garantir que os avanços da medicina cheguem à atenção primária, independentemente da região do país”, afirma.

As desigualdades socioeconômicas e raciais agravam o cenário. Populações negras e indígenas tendem a receber diagnóstico mais tardio, enquanto a concentração de centros especializados no Sul e Sudeste impõe barreiras adicionais a pacientes de outras regiões.

“Quando analisamos os dados, fica claro que a leucemia no Brasil não é apenas um desafio médico, mas também de equidade”, conclui Raphael Saraiva. “Diagnóstico precoce é política pública, gestão e cuidado.”

No Fevereiro Laranja, o alerta é claro: ampliar o acesso ao diagnóstico precoce e ao tratamento oportuno é uma das estratégias mais eficazes para reduzir mortes evitáveis por leucemia no país.

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