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domingo, 1 de fevereiro, 2026

Estudo brasileiro premiado na Europa propõe substituir camundongos em testes antiveneno

Pesquisa da Fiocruz sobre uso de células in vitro em testes com soro contra veneno de jararacas avança em validação e pode reduzir custos e sofrimento animal

A bióloga Renata Norbert, do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS/Fiocruz), recebeu reconhecimento internacional por seu estudo inovador que propõe substituir o uso de camundongos por ensaios in vitro no controle de qualidade de soros antiofídicos, utilizados contra o veneno de cobras do gênero Bothrops.

A pesquisa foi premiada no 13º Congresso Mundial de Alternativas ao Uso de Animais em Testes, promovido pela Sociedade Europeia para Alternativa de Testes em Animais. O estudo também recebeu menção honrosa do Centro Nacional para a Substituição, Refinamento e Redução de Animais em Pesquisa (NC3Rs), do Reino Unido.

JARARACA
As cobras do gênero Bothrops, como jararacas, urutus e cotiaras, são responsáveis por cerca de 90% dos casos de envenenamento por serpentes no Brasil. Dados do DataSUS apontam mais de 12 mil acidentes apenas em 2025.

A picada dessas serpentes pode causar hemorragias, necroses, amputações e até a morte. Apesar da gravidade, o tratamento com antiveneno é considerado uma “doença tropical negligenciada” pela OMS, por não atrair interesse da indústria farmacêutica privada.

MÉTODO
A proposta de Renata Norbert é substituir os roedores por células Vero, cultivadas em laboratório, para testar a eficácia do soro. As células são fixadas em placas e expostas à mistura de veneno com soro. Se permanecem íntegras, o soro é considerado eficaz. Se forem danificadas, o soro é reprovado.

Segundo a pesquisadora, o novo método já alcançou a fase de pré-validação, um marco inédito no mundo para antivenenos. Agora, outros laboratórios estão testando a mesma técnica para comprovar sua reprodutibilidade e robustez.

CUSTO
Além de eliminar o sofrimento dos animais usados em testes, que são posteriormente sacrificados, a substituição por células in vitro representa um avanço logístico e financeiro.

“É um teste rápido, simples e que reduz em até 69% os custos”, afirmou Renata. Enquanto os camundongos levam cerca de um mês para estarem prontos para os testes, o novo método libera resultados em uma semana.

VALIDAÇÃO
A expectativa é que, até março de 2026, o método esteja pronto para ser implementado na prática. A próxima etapa será submeter os resultados à farmacopeia brasileira e distribuir kits com a metodologia para que laboratórios possam aplicá-la.

“Vamos comparar os resultados, fazer análises estatísticas e verificar a reprodutibilidade. Se outros laboratórios tiverem os mesmos resultados que tivemos no INCQS, isso será decisivo”, explicou a bióloga.

EXPANSÃO
Com o reconhecimento internacional, Renata pretende ampliar o estudo para além do Brasil. “Queremos incluir laboratórios de outros países onde há Bothrops, como a Costa Rica, por exemplo. A metodologia pode ser adaptada para diferentes espécies”, disse.

O INCQS já utiliza metodologias in vitro para liberar vacinas. Para venenos, a proposta é pioneira. A bióloga destaca que, se o método funcionar com a Bothrops jararaca, há potencial de aplicação para outras espécies, como a Bothrops asper, presente na América Central.

IMPACTO
Testes com antivenenos feitos atualmente em camundongos causam extremo sofrimento. Os animais passam por procedimentos dolorosos e sem anestesia, sendo sacrificados após o uso.

Segundo Renata, a substituição representa um avanço ético, técnico e econômico: “Queremos transformar essa pesquisa em prática. A ciência precisa andar junto com o respeito à vida, inclusive à dos animais”.

SUS
A produção de soros antiofídicos no Brasil é realizada por instituições públicas como o INCQS, o Instituto Butantan, o Instituto Vital Brazil e a Fundação Ezequiel Dias. Todos fazem parte do SUS e garantem a oferta gratuita do antiveneno à população.

A pesquisa liderada por Renata Norbert é um passo importante para tornar esse processo mais eficiente, ético e acessível.

Com informações Agência Brasil

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