Veterinária une experiência com cavalos, especialização, nutrição, julgamentos e bem-estar animal em uma atuação que vai além da clínica
No Dia do Médico Veterinário, celebrado nesta quarta-feira (9), a história de Mariana Zamboni Pinheiro Pizzo ajuda a mostrar que, para alguns profissionais, a escolha da carreira começa muito antes da universidade. Natural de Andradina (SP), Mariana cresceu cercada por cavalos, incentivada pelos pais a participar de provas e competições, e transformou essa convivência em uma trajetória profissional construída entre conhecimento técnico, paixão pelos animais e busca constante por especialização.
Em casa, a relação com os animais também continua presente. Casada com Gustavo Pizzo, eles são tutores do Zeca, um Jack Russell de quatro anos, que, segundo ela, vive com o casal como um verdadeiro filho e a Chica, que ficou na casa do pais. Mas a história com os cavalos é ainda mais antiga.
DESDE CRIANÇA
A paixão pelos cavalos começou ainda na infância e foi fortalecida pela família. O pai de Mariana, Daniel Pinheiro, a levava para as provas, enquanto ela também contava com a companhia da mãe, Maria Sueli e do irmão, Eduardo, nas viagens e acampamentos.
Ela chegou a competir na modalidade Três Tambores e lembra desse período com carinho.

“Meu pai sempre me estimulou a isso. Meu pai me levava nas provas, meu pai, minha mãe. A gente viajava, acampava, era muito legal.”
Com o início dos estudos, entretanto, a rotina de competições precisou ser interrompida. A faculdade exigiu dedicação e as viagens ficaram mais difíceis. Mas os cavalos nunca deixaram de fazer parte da vida dela.
Logo depois de formada, o pai voltou a comprar um cavalo para Mariana, com uma condição que acabaria tendo um significado especial em sua trajetória: ela teria que cuidar do animal – integralmente.
“Logo que eu formei, meu pai comprou um cavalo pra mim novamente, com a condição de que eu cuidaria daquele cavalo.”
A responsabilidade ajudou a aproximá-la ainda mais da rotina de manejo e dos cuidados com os animais.
“Ele tinha que comer, ele tinha que ficar em algum centro de treinamento, ele tinha que ir pra competições. De certa forma, ele me impulsionou a buscar e correr atrás dos meus sonhos.”
UMA PERDA
A relação com aquele cavalo também trouxe uma das experiências mais dolorosas de sua trajetória. O animal apresentou um quadro de cólica, foi encaminhado para um hospital veterinário e passou por cirurgia, mas Mariana acabou perdendo o companheiro. “Infelizmente, eu acabei perdendo esse animal.”
Depois da perda, ela continuou com outros dois animais que já possuía. Mais tarde, depois do casamento com Gustavo Pizzo, o casal comprou outros três cavalos, que atualmente também participam de competições.
FORMAÇÃO
Quando chegou à faculdade de Medicina Veterinária, Mariana já sabia que queria continuar próxima dos cavalos. Durante o estágio curricular, escolheu trabalhar com reprodução equina.
O estágio foi realizado em São Simão, em uma central de reprodução chamada Embryo Equi. A experiência mostrou uma característica importante da atividade: a reprodução equina possui uma sazonalidade e, fora da estação reprodutiva, muitos profissionais atuam em outras áreas relacionadas aos cavalos.
Foi então que Mariana decidiu buscar conhecimento em odontologia equina.
“Quando eu formei, fiz os cursos, fiz esse estágio curricular, voltei pra Andradina depois do estágio. E aí eu peguei e fiz um curso de odonto, que a intenção era continuar com os cavalos.”
Depois disso, vieram inúmeros cursos de especialização e aperfeiçoamento na área. Mariana passou a atender animais da região e chegou a trabalhar durante cerca de dez anos com odontologia equina.
ODONTOLOGIA
A atuação odontológica nos cavalos se tornou uma parte importante de sua carreira.
Mariana explica que a saúde bucal está diretamente relacionada tanto ao bem-estar quanto ao desempenho do animal. Os dentes dos equinos passam por mudanças ao longo da vida e o desgaste pode provocar a formação de pontas de esmalte que machucam a parte interna da boca. “Essas pontas machucam a bochecha do cavalo. Elas formam úlceras.”
O tratamento odontológico busca ajustar a mordida e permitir que o animal consiga triturar adequadamente os alimentos, favorecendo a digestão e o aproveitamento nutricional.
Mas os efeitos também podem aparecer diretamente no desempenho. “Alguns animais, quando eles têm essas pontas, eles relutam demais pra fazer o exercício, o comando que a gente pede pra ele fazer.”
O desconforto pode ficar ainda mais evidente quando o cavalo utiliza embocadura durante o trabalho. “Quando a gente coloca a embocadura na boca deles, a bochecha é mole. Então imagina, você puxa pro lado assim com a rédea, aquela bochecha enruga. Se ele tem aquelas pontas de esmalte dentário, vão machucar.”
O resultado pode ser um animal que chacoalha a cabeça, reluta e “briga” com o comando.
Para Mariana, uma das partes mais fascinantes da odontologia era justamente perceber a transformação no comportamento do animal.
TROCA DENTÁRIA
O acompanhamento odontológico também é importante durante a fase de troca dos dentes de leite.
Segundo Mariana, os cavalos realizam essas trocas até aproximadamente quatro anos e meio ou cinco anos. Nesse período, alguns dentes podem permanecer presos, provocando ferimentos.
Por isso, a recomendação é de acompanhamento mais frequente nos animais jovens, aproximadamente a cada cinco ou seis meses. Depois dos cinco anos, a avaliação pode ser feita uma vez ao ano.
Além do sofrimento, problemas odontológicos podem trazer consequências em competições. “Você tá numa competição, o animal sangra. Ele não pode sangrar, você é desclassificado. Então, além de causar dor, causa prejuízo e desclassificações em algumas situações.”
NOVOS CAMINHOS
Com o passar dos anos, a carreira de Mariana foi incorporando novas áreas. Em 2019, surgiu a oportunidade de trabalhar com nutrição animal na Terrasemen, empresa localizada em Piratininga, próxima a Bauru, com atuação voltada principalmente para equinos e bovinos.
A nova atividade acabou se conectando diretamente à experiência que ela já possuía. “Eu comecei na Terrasemen em 2019, conciliando junto com a odontologia. Então, uma coisa puxa a outra, porque eu já tinha os meus clientes de odontologia.”
A confiança construída com os clientes na odontologia também ajudou na transição para a nutrição. “Eles confiavam no meu trabalho, no que eu entregava. E continuaram confiando quando eu apresentei o meu produto, as rações que eu trabalho.”
Hoje, Mariana atua principalmente com nutrição de animais, com foco especial nos equinos de alta performance, além de participar de julgamentos e trabalhar com bem-estar animal em eventos oficiais.

TRÊS FRENTES
A própria profissional resume sua trajetória como uma conexão entre diferentes atividades que têm um elemento em comum: o cavalo.
Atualmente, ela trabalha com a nutrição na Terrasemen, atua como juíza oficial da Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Quarto de Milha (ABQM) e participa dos eventos como jurada de bem-estar animal.
“Hoje eu trabalho com três coisas que eu amo muito. E isso por um bem comum, que é o cavalo.”
Mesmo sem atuar atualmente na clínica veterinária, Mariana ressalta que a formação continua presente em tudo o que faz.
“Eu falo: nossa, eu formei, hoje eu não uso. Mas não é. Na verdade, eu uso, é que eu não clinico.”
ESTADOS UNIDOS
A busca por conhecimento também levou Mariana aos Estados Unidos.

Em 2019, ela trabalhou em uma fazenda de hipismo no país. Na época, já atuava com odontologia equina e chegou a ter a oportunidade de retornar para atender animais, mas as circunstâncias tornaram o projeto inviável naquele momento.
A experiência, porém, trouxe contato com diferentes formas de manejo e cuidados com os cavalos, incluindo ferrageamento e atendimento de problemas locomotores.
“Eu via ferrageamento, a parte de locomotor. Veterinários que iam para o exterior atender locomotor. Foi uma experiência maravilhosa.”
Em 2026, Mariana voltou aos Estados Unidos, desta vez para o Texas, onde visitou a arena Will Rogers, que havia recebido o mundial de Hand Sorting.
A modalidade tem relação direta com sua atividade profissional no Brasil, já que Mariana também atua como juíza.
Ela não encontrou os competidores brasileiros porque o campeonato já havia terminado, mas teve a oportunidade de conhecer a estrutura, observar equipamentos e acompanhar aspectos relacionados ao bem-estar dos animais.
“A viagem ao Texas Foi muito legal, pude ver muita novidade de lá e pensar para cá. ver o contraste de Algumas coisas que são liberadas aqui, outras não. Então foi muito importante para mim como profissional da área.”
Em 2019, Mariana Pizzo teve uma experiência internacional anterior, que contribuiu para ampliar ainda mais sua visão sobre o universo equestre. Em Ocala, na Flórida, ela passou dois meses na Redfield Farm, atuando exclusivamente como groom, função de assistência ao treinador profissional de cavalos. Durante o período, participou da rotina de manejo, cuidados e acompanhamento dos animais, experiência que trouxe novos conhecimentos e referências para sua trajetória profissional.

BEM-ESTAR
A atuação como jurada de bem-estar animal ganhou espaço importante na carreira de Mariana.
Para exercer determinadas funções nos eventos da ABQM, é necessário possuir formação na área de Ciências Agrárias e, no caso da função ligada ao bem-estar animal que ela desempenha, formação em Medicina Veterinária.

Desde 2023, Mariana é homologada pela ABQM como juíza das modalidades de velocidade. Em 2025, passou a atuar também no Congresso Brasileiro da Raça Quarto de Milha, no Campeonato Nacional da Raça Quarto de Milha e no Potro do Futuro, Copa dos Campeões e Derby.
Em 2026, ela novamente participou do Congresso e do Nacional e está escalada para atuar no Potro do Futuro como jurada de bem-estar animal, ao lado de outros dois médicos-veterinários.
A dimensão desses eventos exige uma estrutura rigorosa de acompanhamento. Mariana destaca que podem participar mais de três mil equinos e outros três a quatro mil bovinos.
“É muito grandioso. E precisa desse cuidado, desse respeito, desse conhecimento, pra que esses animais estejam lá e sejam tratados da melhor forma possível.”
O trabalho envolve observar desde as condições dos locais onde os animais ficam alojados até a frequência de trabalho, aquecimento, competições e condições físicas.
No caso dos bovinos, é verificado se estão saudáveis e aptos para as atividades. Nos equinos, o acompanhamento ocorre também durante os aquecimentos e as competições.
O princípio, segundo Mariana, é garantir que os animais sejam tratados com respeito.
“O cuidado pra que esses animais sejam tratados com respeito. Que eles tenham ausência de dor. Que eles não fiquem estressados. Que eles sejam tratados como eles realmente merecem ser tratados.”
OS CAMPEÕES
A paixão pelos cavalos também se traduz em investimento, treinamento e competição dentro da própria família.
Entre os animais estão SHINING POP CAT AOM, campeã do Congresso e do Campeonato Nacional da Raça Quarto de Milha na categoria Aberta Juvenil, modalidade Working Cow Horse.
Também está GAL HEAVENS REY, reservada campeã do Congresso e do Campeonato Nacional da Raça Quarto de Milha, na categoria Aberta Juvenil, modalidade Working Cow Horse.
E há ainda FÚLVIA WHITEWOOD, considerada a próxima estrela da família e atualmente em treinamento para a modalidade de Laço em Dupla.
São animais que exigem treinamento, alimentação, cuidados veterinários, acompanhamento odontológico, manejo e investimento — uma rotina que Mariana conhece tanto pela profissão quanto pela experiência pessoal.
GRANDES CLIENTES
A atuação profissional também colocou Mariana em contato com criadores e propriedades de destaque.
Entre os trabalhos está o acompanhamento do julgamento de gado de elite de clientes da Terrasemen. Entre os clientes estão propriedades de grande projeção, como a Fazenda Terra Prometida, ligada aos cantores sertanejos Henrique e Juliano.
A experiência com animais de alta performance e propriedades de diferentes portes amplia ainda mais o campo de atuação da veterinária.

“O CAVALO É TUDO”
Apesar de toda a parte técnica, Mariana não esconde que existe uma dimensão emocional na relação com os animais.
“O cavalo é tudo, né? Eu sou muito suspeita pra falar do cavalo.”
Para ela, o cavalo também representa transformação.
“Eu costumo dizer que o cavalo muda vidas.”
Essa relação, construída desde a infância, acabou influenciando a escolha profissional, os cursos, as viagens, os trabalhos e até os caminhos que Mariana continua percorrendo atualmente.
UMA ESCOLHA
No Dia do Veterinário, a mensagem de Mariana vai além da própria profissão. Ela fala também para quem está começando a faculdade, entrando no mercado de trabalho ou tentando descobrir qual caminho seguir.
Para ela, o diferencial está na disposição para aprender, buscar conhecimento e fazer aquilo que realmente desperta interesse.
“Quem tem vontade, quem tem sonhos, que você se diferencie das pessoas. Você tenha um a mais, tenha um diferencial.”
Mariana acredita que o mercado precisa de profissionais dispostos a se capacitar, buscar conhecimento e assumir uma postura proativa.
“Existe muita demanda, precisamos de profissionais. Falta pessoas que estão dispostas a se capacitar, que estão dispostas a buscar conhecimento. A gente precisa de pessoas que sejam proativas.”
A trajetória dela é um exemplo de como diferentes áreas podem se conectar quando existe propósito. Reprodução, odontologia, nutrição, julgamento, bem-estar animal e competição acabaram formando uma carreira que continua tendo o cavalo como ponto central.

FAZER O QUE AMA
A principal mensagem deixada pela veterinária, entretanto, talvez esteja justamente na relação entre profissão e paixão.
“Você escolher o que você ama. Porque quando a gente ama, a gente não trabalha.”
Mariana afirma que acorda todos os dias com a certeza de que fará aquilo que escolheu e que convive profissionalmente com pessoas que admira e que compartilham dos mesmos objetivos.
“Eu acordo todos os dias com a certeza de que eu vou fazer o que eu amo.”
E completa:
“Vai dar dinheiro o que você fizer com amor. O que você correr atrás. O que você buscar.”
Para ela, não existe uma fórmula baseada apenas na escolha de uma área por retorno financeiro. O resultado vem da dedicação, da busca por conhecimento e da disposição para construir uma trajetória.
“As coisas não são fáceis, não. Mas se a gente quiser, se a gente tiver vontade, se a gente buscar, a gente consegue.”
A história de Mariana Zamboni Pinheiro Pizzo mostra, assim, uma veterinária que não deixou para trás a menina que começou a montar e competir ainda criança. Pelo contrário: levou aquela paixão para a universidade, transformou-a em profissão e continua encontrando novas maneiras de cuidar, estudar, competir e trabalhar pelo bem-estar dos animais.

No Dia do Médico Veterinário, a trajetória de Mariana reforça que, quando conhecimento e paixão caminham juntos, a profissão pode deixar de ser apenas um trabalho e se tornar uma forma de vida.


