27.6 C
Três Lagoas
domingo, 8 de fevereiro, 2026

Desigualdade educacional é reflexo da naturalização das injustiças, aponta especialista

Diretor da Fundação Santillana defende políticas públicas que reconheçam a diversidade e combatam a educação como herança de classe

A superação das desigualdades de aprendizagem nas escolas brasileiras exige romper com um problema histórico: a naturalização das desigualdades sociais, segundo André Lázaro, diretor de Políticas Públicas da Fundação Santillana. Para ele, a má qualidade dos resultados educacionais não é apenas um acaso ou deficiência pontual, mas parte de um sistema profundamente enraizado em heranças históricas.

“Joaquim Nabuco já alertava que um país que viveu 300 anos de escravidão demoraria a reconhecer a igualdade de todos. Ainda estamos nessa fase”, afirma Lázaro.

Foto: André Lázaro/Arquivo pessoal

HERANÇA
A educação, segundo o especialista, continua sendo um privilégio de classe, e não um direito garantido a todos. Os dados do Anuário Brasileiro da Educação Básica 2025 confirmam esse cenário: em 2023, apenas 2,4% dos jovens do 3º ano do ensino médio entre os 20% mais pobres tiveram aprendizagem adequada em matemática e língua portuguesa, contra 16,3% entre os 20% mais ricos.

“Quando se analisa por localização e renda, as diferenças saltam para até 20 pontos percentuais”, alerta o professor.

RAÇA
Além da desigualdade de renda, Lázaro destaca que a população negra ainda enfrenta desvantagens profundas no acesso à educação de qualidade. A situação é agravada no campo: há 5 milhões de matrículas em escolas rurais, o que representa 12% do total nacional. Ainda assim, entre 2014 e 2024, 16 mil escolas municipais rurais foram fechadas.

“Isso não é só consequência da mudança demográfica. É uma forma de expulsar as famílias do campo, pressionando pela venda de terras e ampliando a concentração fundiária”, critica.

ACESSO
Apesar das desigualdades, o país avançou na inclusão escolar. O anuário mostra que 95% das crianças ingressam na pré-escola. Em 2024, 97,6% dos jovens de 11 a 14 anos estavam matriculados nos anos finais do ensino fundamental, próximo da universalização. Já no ensino médio, a taxa de matrícula chegou a 82,8% entre jovens de 15 a 17 anos, frente aos 72,9% registrados em 2014.

“O Brasil tem uma população escolar maior que a da Argentina. Com docentes, ultrapassamos a população da Espanha”, comenta.

QUALIDADE
Apesar dos avanços no acesso, os níveis de aprendizagem permanecem insatisfatórios. Apenas 4,5% dos alunos da rede pública do 3º ano do ensino médio tiveram desempenho adequado em português e matemática. Mesmo nas escolas particulares, o índice foi de 28%.

“Até entre os mais ricos, os resultados são ruins. Isso mostra que o problema não é só da rede pública, mas nacional”, observa Lázaro.

DIVERSIDADE
Lázaro critica a tendência à padronização imposta por políticas como a BNCC (Base Nacional Comum Curricular), que, segundo ele, desconsidera as especificidades regionais. “Estamos tratando igualdade como uniformidade. A verdadeira igualdade deveria reconhecer a diversidade”, defende.

DOCÊNCIA
A desvalorização da carreira docente é outro ponto crítico. O anuário revela que 49% dos professores das redes estaduais têm contratos temporários. Para Lázaro, essa rotatividade prejudica a construção de identidade e continuidade pedagógica nas escolas.

“Como se constrói espírito de equipe se metade da equipe muda a cada ano?”, questiona.

AFIRMATIVAS
Entre os caminhos para enfrentar a desigualdade educacional, Lázaro destaca as políticas afirmativas no ensino superior, como o sistema de cotas. “As cotas abriram espaço para jovens negros e pobres na universidade pública. Hoje, temos intelectuais formados por esse sistema que são vozes importantes no debate público”, afirma.

Com informações Agência Brasil

Deu na Rádio Caçula? Fique sabendo na hora!
Siga nos no Google Notícias (clique aqui).
Quer falar com a gente? Estamos no Whatsapp (clique aqui) também.

Veja também

Mais de 244 mil sul-mato-grossenses passam a ser beneficiados por nova isenção do Imposto de Renda

Lei sancionada em novembro amplia faixa de isenção para quem ganha até R$ 5 mil e concede descontos progressivos a rendas de até R$...

Fevereiro Laranja alerta para desigualdades no diagnóstico e tratamento da leucemia no Brasil

Apesar dos avanços médicos, subdiagnóstico, acesso desigual e demora no atendimento ainda impactam a sobrevida de pacientes Fevereiro é dedicado à conscientização sobre a leucemia,...

Mais Médicos Especialistas abre inscrições com vagas para Mato Grosso do Sul

Programa do Ministério da Saúde oferece 11 vagas no Estado, as inscrições vão até dia 19 de fevereiro O Ministério da Saúde abriu as inscrições...