Além do atendimento clínico, a medicina veterinária atua na prevenção de doenças e na segurança dos alimentos
Quando se fala em médico veterinário, a associação mais comum é com o atendimento de cães, gatos e outros animais de companhia. Mas a profissão está presente em uma área muito mais ampla e que tem impacto direto na vida de toda a sociedade: a saúde pública, a produção de alimentos, o meio ambiente e a prevenção de doenças.
No Dia do Médico Veterinário, celebrado nesta quarta-feira (9), olhar para a profissão por essa perspectiva ajuda a compreender por que cuidar da saúde animal também significa cuidar da saúde humana.
A relação entre pessoas, animais e meio ambiente é a base do conceito de Saúde Única, abordagem que considera que esses três componentes estão diretamente conectados. Na prática, o médico veterinário participa de ações que vão desde a prevenção e controle de doenças até a garantia da qualidade dos alimentos de origem animal, o bem-estar dos rebanhos e a busca por sistemas de produção mais eficientes e sustentáveis.
É justamente nessa interseção entre saúde animal, produção e meio ambiente que está parte da pesquisa da médica veterinária Clara de Araujo Sanchez, mestra em Ciência e Tecnologia Animal e doutoranda em Fisiopatologia e Saúde Animal.
Entre os temas estudados está a relação entre a produção de carne, o ciclo do carbono e a sustentabilidade da pecuária. A discussão também dialoga com o livro A Carne Nossa de Cada Dia, de Diana Rodgers e Robb Wolf, que aborda os impactos ambientais, sociais e nutricionais relacionados à produção e ao consumo de carne.
Para Clara, o assunto precisa ser tratado com informação e sem generalizações.
“Como profissional da área veterinária, acredito que esse debate precisa ser feito com informação e sem generalizações. A pecuária tem impactos ambientais, mas também possui uma enorme diversidade de sistemas de produção e realidades.”
SAÚDE ÚNICA
A saúde de um rebanho tem consequências que ultrapassam os limites da propriedade rural. Animais saudáveis apresentam melhores condições de desenvolvimento e produção, enquanto a prevenção e o controle de doenças são fundamentais para reduzir riscos sanitários e proteger também as pessoas.
O médico veterinário atua nesse processo por meio do acompanhamento dos animais, da prevenção de enfermidades, da orientação sanitária, do uso responsável de medicamentos veterinários e de procedimentos relacionados à inspeção e segurança dos produtos de origem animal.

Essa atuação se torna ainda mais relevante diante das doenças que podem ser transmitidas entre animais e seres humanos. Por isso, a Medicina Veterinária ocupa uma posição estratégica na prevenção de problemas que podem afetar a saúde coletiva.
Na avaliação de Clara, essa conexão ajuda a explicar por que a profissão deve ser compreendida para além do atendimento clínico.
“Cuidar da saúde animal também é cuidar da saúde humana. Quando trabalhamos com prevenção de doenças, bem-estar animal, segurança dos alimentos e qualidade da produção, estamos atuando diretamente em questões que chegam à sociedade.”
PECUÁRIA SUSTENTÁVEL
Outro tema diretamente relacionado à atuação veterinária é a sustentabilidade da produção de alimentos.
A pecuária possui impactos ambientais, especialmente relacionados às emissões de gases de efeito estufa, ao uso da terra e dos recursos naturais. No entanto, existem diferentes sistemas de produção, condições ambientais e níveis de eficiência.
Por isso, segundo Clara, o debate precisa considerar as características de cada sistema e buscar caminhos para produzir melhor. “É fundamental discutir como produzir melhor, utilizando tecnologias, manejo adequado, recuperação de pastagens, eficiência produtiva e práticas que permitam produzir mais com menor impacto ambiental.”
A pesquisadora ressalta que sustentabilidade não deve ser tratada como uma oposição à produção de carne.
“Sustentabilidade não deve ser vista como uma oposição à produção de carne, mas como um desafio para que a produção seja cada vez mais eficiente, responsável e ambientalmente adequada.”
Essa perspectiva muda também a forma como o consumidor pode enxergar o debate. Em vez de uma discussão limitada à escolha entre comer ou não comer carne, a proposta é compreender todo o caminho percorrido pelo alimento.
“Mais do que simplesmente discutir ‘comer ou não comer carne’, precisamos discutir como essa carne é produzida, quais práticas são utilizadas e como ciência, produtores, profissionais e consumidores podem contribuir para um sistema alimentar mais sustentável.”
CICLO DO CARBONO
Um dos pontos estudados por Clara e apresentados no livro A Carne Nossa de Cada Dia é o diagrama que compara o ciclo do carbono dos bovinos com o dos combustíveis fósseis.
No sistema de produção a pasto, o carbono presente na atmosfera é capturado pelas plantas por meio da fotossíntese. Ele passa para os animais quando estes consomem a vegetação e retorna ao ambiente por diferentes processos.
Durante a fermentação ruminal, os bovinos produzem metano, liberado principalmente pela eructação. O metano é um gás de efeito estufa e, portanto, precisa ser considerado quando se avaliam os impactos ambientais da pecuária.
Clara destaca, porém, que é necessário compreender a origem desse carbono.
“No caso dos bovinos, estamos falando de um ciclo biogênico de carbono, diferente dos combustíveis fósseis, que transferem para a atmosfera carbono que estava armazenado no subsolo há milhões de anos.”
O conceito não significa que as emissões provenientes dos bovinos deixem de ter importância. O metano é um gás de efeito estufa e sua contribuição para o aquecimento global precisa ser considerada nas avaliações ambientais.
A diferença está na dinâmica do carbono envolvido. No ciclo biogênico, o carbono circula entre atmosfera, plantas, animais e solo. Já a queima de combustíveis fósseis adiciona à atmosfera carbono que permaneceu armazenado geologicamente por milhões de anos.
SOLO SAUDÁVEL
Dentro desse ciclo, o solo também desempenha um papel importante.
As pastagens retiram CO₂ da atmosfera por meio da fotossíntese. Parte desse carbono pode ser incorporada à biomassa das plantas, às raízes e à matéria orgânica do solo.
É nesse ponto que o manejo das pastagens ganha importância. “A pastagem retira CO₂ da atmosfera pela fotossíntese e parte desse carbono pode ficar armazenada nas raízes e na matéria orgânica do solo.”
Segundo a pesquisadora, a recuperação de áreas degradadas e o manejo adequado podem favorecer o armazenamento de carbono no solo, além de trazer benefícios para a própria produção.
“Pastagens bem manejadas e a recuperação de áreas degradadas podem contribuir para aumentar os estoques de carbono no solo, o que é benéfico para o meio ambiente, pois melhora a qualidade do solo e favorece uma produção pecuária mais sustentável.”
O solo também participa de processos relacionados à retenção de água, à ciclagem de nutrientes e à atividade dos microrganismos.
No entanto, Clara faz uma ressalva importante: o sequestro de carbono não deve ser utilizado para afirmar que todas as emissões da pecuária estão automaticamente compensadas. “Isso não significa que o sequestro de carbono simplesmente anule as emissões dos bovinos, mas mostra que precisamos avaliar o sistema produtivo como um todo.”
A avaliação, portanto, precisa considerar as características de cada sistema, incluindo solo, clima, manejo, alimentação, produtividade e condições da pastagem.
ATUAÇÃO VETERINÁRIA
É justamente nessa visão sistêmica que o trabalho do médico veterinário ganha uma dimensão que muitas vezes não é percebida pelo consumidor.
A saúde e o bem-estar dos animais estão relacionados à eficiência da produção. Um rebanho com bom estado sanitário tende a apresentar melhores condições produtivas, enquanto a prevenção de doenças pode reduzir perdas e contribuir para o uso mais eficiente dos recursos.
A atuação profissional também envolve nutrição, reprodução, manejo, biossegurança, prevenção de enfermidades e orientação dos produtores.
Para Clara, a atuação veterinária precisa estar conectada a esses diferentes aspectos.
“Como veterinária, acredito que nosso papel é justamente trabalhar para produzir mais e melhor, reduzindo a intensidade das emissões e tornando a pecuária cada vez mais eficiente e sustentável.”
Isso significa que o profissional pode contribuir não apenas para a saúde individual dos animais, mas para o funcionamento de todo o sistema produtivo.
Na produção de alimentos, esse trabalho se conecta ainda à segurança dos produtos que chegam à mesa da população.
Assim, o veterinário participa de diferentes etapas de uma cadeia que começa no campo e chega diretamente à alimentação das pessoas.
PRODUÇÃO EFICIENTE
Para Clara, o desafio da pecuária contemporânea está em produzir mais e melhor, reduzindo a intensidade das emissões e utilizando os recursos naturais de maneira cada vez mais eficiente.
Isso envolve uma combinação de conhecimento científico, tecnologia e boas práticas de produção.
Melhorar a alimentação dos animais, cuidar da saúde e do bem-estar, recuperar pastagens, manejar corretamente o solo e utilizar tecnologias que aumentem a eficiência são medidas que podem contribuir para sistemas produtivos mais sustentáveis.
A eficiência é importante porque permite analisar quanto de alimento é produzido em relação aos recursos utilizados e às emissões geradas.
Nesse contexto, práticas de manejo podem contribuir para melhorar indicadores produtivos e ambientais simultaneamente.
Para a pesquisadora, a ciência tem papel fundamental nesse processo.
“Precisamos aproximar a sociedade da realidade do campo. É importante que as pessoas entendam que existem diferentes formas de produzir e que a ciência pode ajudar a encontrar caminhos para uma produção cada vez mais eficiente.”
ESCOLHAS CONSCIENTES
O debate sobre carne e sustentabilidade também chega ao consumidor.
Informações sobre origem, sistema de produção, manejo e segurança dos alimentos ajudam a população a compreender que não existe uma única realidade quando se fala em pecuária.
A produção de alimentos envolve decisões tomadas por diferentes atores: produtores, profissionais, indústria, poder público e consumidores.
Por isso, ampliar o acesso à informação é fundamental para que as escolhas sejam feitas com base em conhecimento, e não apenas em opiniões ou generalizações.
O livro que integra parte do universo de estudo da doutoranda também contribui para colocar essa discussão em evidência. Mais do que apresentar respostas simples, a abordagem permite questionar como os alimentos são produzidos e quais são os impactos envolvidos em cada modelo.
Para Clara, esse é um debate que precisa aproximar diferentes setores da sociedade.
“Precisamos discutir como ciência, produtores, profissionais e consumidores podem contribuir para um sistema alimentar mais sustentável.”
No Dia do médico veterinário, essa é uma das mensagens que merece ser destacada: a profissão não cuida apenas dos animais individualmente. Ela também contribui para prevenir doenças, garantir alimentos seguros, melhorar a produção e buscar uma relação mais equilibrada entre animais, pessoas e meio ambiente.



