Psicóloga Leila Alba e assistente social Ana Carolina destacaram o aumento na procura por atendimentos e reforçaram a importância da informação para romper o ciclo da violência
Durante entrevista ao Café da Manhã, da 96 Caçula nesta sexta-feira, 06, a psicóloga Leila Alba e a assistente social Ana Carolina Lima, integrantes da equipe do Centro de Referência de Atendimento à Mulher (CRAM) “Halley Coimbra”, falaram sobre as ações especiais realizadas durante a Semana Municipal da Mulher em Três Lagoas, além de abordar o cenário atual de atendimentos e os desafios no enfrentamento à violência contra a mulher.
Segundo as profissionais, o trabalho do CRAM ocorre durante todo o ano com foco no acolhimento, orientação e acompanhamento de mulheres que enfrentam situações de violência, além de ações preventivas em escolas e comunidades. No entanto, durante o mês de março, as atividades são intensificadas para ampliar o debate e levar informação à população.

De acordo com a psicóloga Leila Alba, o objetivo do centro é oferecer um ambiente seguro para que as mulheres possam ser ouvidas e fortalecidas emocionalmente. “O CRAM é uma casa de acolhimento. A mulher chega muitas vezes extremamente fragilizada e nosso papel é ouvi-la, compreender sua história e ajudá-la a ressignificar aquela experiência para que consiga seguir em frente”, explicou.
Ela destacou que muitas vítimas não percebem inicialmente que vivem em um relacionamento abusivo, principalmente por causa do chamado ciclo da violência, que alterna momentos de agressão com pedidos de desculpas e promessas de mudança por parte do agressor.
“Grande parte das mulheres que chegam até nós ainda não identifica a dependência emocional em que se encontram. Nosso trabalho é ajudá-las a compreender esse processo e fortalecer a autonomia para romper com esse ciclo”, afirmou.

Outro ponto de atenção levantado pela psicóloga é o crescimento de casos de violência vicária, quando o agressor utiliza os filhos para atingir emocionalmente a mulher após a separação. “Infelizmente é algo mais comum do que imaginamos. Quando o agressor não consegue lidar com o fim do relacionamento, ele tenta atingir a mulher por meio dos filhos, causando um sofrimento ainda maior”, alertou.
Já a assistente social Ana Carolina Lima, que realiza o primeiro atendimento às mulheres no CRAM, explicou que houve um aumento significativo na procura por ajuda nos últimos meses. “Do ano passado, especialmente a partir de outubro, tivemos um aumento considerável de atendimentos. Isso nos levou a reorganizar a forma de trabalho e ampliar a equipe para garantir um acolhimento adequado”, destacou.
Segundo ela, atualmente a maioria das mulheres atendidas tem entre 25 e 50 anos, e grande parte chega ao serviço encaminhada pela Delegacia de Atendimento à Mulher, após registrar boletim de ocorrência.
“O primeiro passo é o acolhimento e a escuta. Muitas chegam extremamente abaladas e precisam ser ouvidas com calma e sem julgamento. Depois disso, avaliamos as necessidades de cada caso, que podem envolver orientação jurídica, acompanhamento psicológico e suporte social”, explicou.
O acompanhamento pode durar, em média, até seis meses, período em que a mulher recebe apoio da equipe multidisciplinar para reconstruir sua autonomia e superar o impacto emocional da violência.
Durante a Semana Municipal da Mulher, o CRAM também promove diversas atividades de conscientização, como palestras, rodas de conversa, ações em unidades de saúde e eventos comunitários. Entre as iniciativas está o projeto “Conhecer para Combater”, realizado em unidades de saúde, além da participação em eventos como feira de saúde, corrida de rua e rodas de diálogo em diferentes espaços da cidade.

Outro destaque é a atividade “Café com Prosa”, voltada às mulheres atendidas pelo centro. O encontro em grupo permite a troca de experiências entre as participantes, fortalecendo o processo de superação. “Esse momento é muito importante porque elas percebem que não estão sozinhas. Compartilhar histórias ajuda no fortalecimento emocional e na reconstrução da autoestima”, explicou Leila.
As profissionais também reforçaram que o CRAM atende mulheres de forma gratuita e confidencial, inclusive por procura espontânea. “O mais importante é que a mulher saiba que ela não está sozinha. O CRAM está de portas abertas para acolher, orientar e apoiar sem julgamentos”, ressaltou Ana Carolina Lima.
O atendimento ocorre de segunda a sexta-feira, das 7h às 17h, e pode ser procurado por qualquer mulher que esteja enfrentando ou suspeite estar vivendo algum tipo de violência, seja física, psicológica, moral, patrimonial ou sexual. Segundo a equipe, buscar informação e apoio é o primeiro passo para romper o ciclo da violência e garantir uma vida mais segura e digna.


