14/11/2016 – Atualizado em 14/11/2016
Durante o curso, os alunos trabalham sempre em grupo e avaliam os trabalhos uns dos outros
Por: Marcio Ribeiro com UOL
Uma universidade revolucionária, sem professores, onde não há livros e nada é pago, acaba de ser aberta no Vale do Silício, na Califórnia. A ideia é receber por ano mil estudantes interessados em programação de computadores e desenvolvimento de software. Durante o curso, os alunos trabalham sempre em grupo e avaliam os trabalhos uns dos outros.
O nome da nova universidade, 42, é uma referência à resposta sobre qual seria o sentido da vida segundo o clássico de ficção científica O Guia do Mochileiro das Galáxias (The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, no original em inglês) de Douglas Adams – criado nos anos 1970 como série de rádio da BBC e transformado em livro, peça de teatro, minissérie de TV, filme longa-metragem, revista em quadrinhos, livro ilustrado e jogo de computador.
O Guia do Mochileiro das Galáxias é o nome de um dicionário fictício, que tem definições e opiniões sobre todo o universo.
O primeiro campus da 42 foi criado em Paris, em 2013, por Xavier Niel, um empresário e milionário do setor de tecnologia.
Muitos do que se formaram lá trabalham hoje em grandes empresas como IBM, Amazon e Tesla. Alguns criaram suas próprias companhias.
Facebook e Airbnb como modelos
Xavier Niel e seus sócios – vindos de start-ups do setor de tecnologia – querem revolucionar a educação como o Facebook fez com a comunicação na internet e o Airbnb com a hotelaria convencional.
Para atingir essa meta, a universidade combina uma forma radical de ensino colaborativo e aprendizagem por projetos.
Os dois métodos são bastante populares entre educadores, mas normalmente envolvem a supervisão de professores.
Assim, os alunos da 42 podem escolher projetos – como criar um website ou um jogo de computador – que seriam executados se eles estivessem trabalhando em uma empresa como desenvolvedores de software.
Para colocar seu projeto de pé, eles usam as fontes gratuitas disponíveis na internet e recebem ajuda dos colegas. Todos trabalham lado a lado, em uma ampla sala, com várias fileiras de computadores. Depois, a avaliação será feita por um outro colega, escolhido aleatoriamente.
Como nos jogos de computador, os estudantes vão avançando no curso em níveis ou fases e competem com um mesmo projeto. Eles se formam ao atingir o nível 21 e isso geralmente leva de três a cinco anos. Ao concluir o curso, recebem um certificado, nada de diploma tradicional.
Fim do aprendizado passivo
Os criadores da 42 afirmam que esse método de aprendizagem é melhor que o sistema tradicional que, segundo eles, incentiva os estudantes a serem receptores passivos de conhecimento.
“O retorno que temos recebido dos empregadores é que os jovens que formamos são mais preparados para buscar informações por si mesmos, por exemplo, sem precisar perguntar ao supervisor o que devem fazer,” diz Brittany Bir, chefe de operações da 42 na Califórnia e ex-aluna no campus de Paris.
Aprendendo com quem aprende
“O aprendizado colaborativo faz os estudantes desenvolverem a confiança necessária para buscar soluções de forma autônoma, com métodos criativos e engenhosos””, explica.
Ela afirma ainda que quem passou pela 42 é mais capaz de trabalhar em grupo, discutir e defender ideias – qualidades procuradas no mundo real do mercado de trabalho em tecnologia.
“Isso é especialmente importante na área de programação, onde há uma falta de determinadas habilidades humanas,” acrescenta.
O aprendizado colaborativo não é novidade e já é adotado em várias escolas e universidades, especialmente em áreas como engenharia.
Aliás, historiadores concluíram que, na Grécia antiga, o filósofo Aristóteles tinha na sua escola alunos que eram monitores e ajudavam os colegas.
Pesquisas recentes mostram que o aprendizado colaborativo pode fazer o aluno desenvolver um conhecimento mais profundo sobre determinado assunto.
Especialista em educação, o professor Phil Race explica que assuntos difíceis são mais fáceis de entender quando explicados por alguém que os aprendeu sozinho, sem nenhuma ajuda.
Dan Butin, reitor da escola de educação e política social do Merrimack College de Massachusetts, nos EUA, defende que o aprendizado colaborativo e por projetos seja popularizado em colégios e universidades.
O professor Butin diz que esses métodos são “ferramentas de ensino” muito melhores do que palestras, por exemplo, que normalmente não propõem desafios ao raciocínio dos ouvintes.



