Em entrevista à Caçula FM, artista plástica relembrou mais de 20 anos de atuação, falou sobre formação artística gratuita, histórias de alunos, novos projetos e o desafio de ampliar o atendimento à comunidade
Mais do que ensinar música, pintura ou outras manifestações artísticas, a Casa da Cultura de Três Lagoas se tornou, ao longo dos anos, um espaço de convivência, aprendizado e transformação social. É o que destaca a artista plástica e coordenadora de projetos Nilva Barrozo, que atua na instituição desde 2004 e acompanhou de perto a construção de iniciativas voltadas principalmente a pessoas que não teriam condições financeiras de frequentar cursos particulares.
Em entrevista ao Jornal da Caçula, da Caçula FM 96,9, nesta sexta-feira (25), Nilva relembrou a trajetória dos projetos desenvolvidos na Casa da Cultura, falou sobre o trabalho voluntário, a formação de novos talentos e o impacto que a arte provoca na vida de crianças, adolescentes, jovens e adultos.
Segundo ela, quando chegou à Casa da Cultura, o espaço ainda tinha poucas atividades. Aos poucos, começou a desenvolver projetos sociais com a intenção de fazer com que o local cumprisse uma função de democratização do acesso à cultura.
“Eu sempre acreditei que a Casa da Cultura teria que dar oportunidade para as outras pessoas, principalmente pessoas que moram na periferia, que não têm esse acesso, não conseguem pagar um curso de artes, um curso de música”, contou.
VOLUNTARIADO
Um dos primeiros trabalhos desenvolvidos por Nilva foi voltado a crianças surdas. Ela reuniu cerca de 25 alunos e, mesmo sem conhecer Libras naquele momento, iniciou as atividades e buscou formas de desenvolver o projeto.
Posteriormente, surgiu o projeto Meu Pincel Mágico, voltado ao ensino de pintura. Nilva contou que passou cerca de cinco anos trabalhando de forma voluntária e que as próprias alunas de seu ateliê particular ajudavam nas atividades.
O projeto começou pequeno, atendendo aproximadamente 25 crianças, mas abriu caminho para iniciativas maiores e para a utilização de mecanismos de incentivo à cultura.
“Ele dá o mesmo trabalho que um projeto para 100, que é hoje, 150, 200 pessoas”, explicou.
Ao recordar os primeiros alunos, Nilva destacou que muitos deles cresceram, seguiram os estudos e construíram suas próprias trajetórias. Alguns, segundo ela, chegaram a concluir a faculdade e outros hoje são encontrados trabalhando em empresas da região.
Para a artista, acompanhar essas histórias é uma das maiores recompensas do trabalho.
“Isso é tão bom, é tão gratificante”, afirmou.
ALÉM DA FORMAÇÃO
Na avaliação de Nilva, o principal resultado dos projetos não está necessariamente em formar artistas profissionais, mas em contribuir para a formação humana dos participantes.
“A arte não só ensina. E não tem essa necessidade de você transformar ele num artista. Mas a necessidade que nós temos é de transformar ele num ser humano mais relevante”, afirmou.
Ela lembrou experiências com alunos de bairros mais afastados que tiveram, por meio dos projetos, a oportunidade de conhecer museus e outros espaços culturais fora de Três Lagoas.
Para ela, essas experiências deixam memórias que acompanham os estudantes por toda a vida.
“Ficou só memórias boas, memórias afetivas que ele não vai esquecer nunca”, relatou.
Nilva também destacou o vínculo criado entre professores, coordenadores e alunos. Segundo ela, a Casa da Cultura acaba funcionando como um espaço onde os participantes encontram acolhimento e têm a oportunidade de conversar sobre dificuldades que nem sempre conseguem compartilhar dentro de casa.
MUSICANDO TALENTOS
Atualmente, um dos principais projetos da Casa da Cultura é o Musicando Talentos, que oferece formação musical gratuita e continuada.
O projeto atende aproximadamente 150 jovens e oferece aulas de bateria, violão, violino, viola de arco, violoncelo, guitarra, baixo e outros instrumentos.
As atividades acontecem no contraturno escolar e os participantes não precisam levar seus próprios instrumentos. A Casa da Cultura disponibiliza os equipamentos utilizados nas aulas, além de oferecer alimentação e uniforme aos alunos.
A procura, segundo Nilva, é maior do que a capacidade atual da instituição. Ela também destacou que o projeto alcançou estudantes de 65 bairros de Três Lagoas neste ano.
“Se nós tivéssemos mais espaço ali, a gente conseguiria atender não só 150 pessoas, mas muito mais”, afirmou.
ORQUESTRA
Uma das novidades do projeto neste ano foi a criação de uma orquestra formada por 30 alunos que apresentaram destaque durante o processo de aprendizagem.
Os estudantes recebem uma ajuda de custo e também participam de apresentações externas. O grupo já realizou apresentações em escolas, instituições e outros espaços da cidade.
Nilva contou que pretende levar a orquestra também para comunidades mais distantes do centro. Entre as próximas ações está uma apresentação planejada para o Pontal do Faia.
Para ela, levar a música para esses locais representa justamente a proposta de democratizar o acesso à cultura.
“Eu acho que é essa a democratização de acesso que a Casa da Cultura tem que fazer”, afirmou.
A intenção é que, posteriormente, o trabalho possa chegar também a outras localidades, como Arapuá e Garcias.
VAGAS
Apesar da procura e da existência de lista de espera, Nilva afirmou que algumas vagas ainda estão disponíveis.
No momento, há possibilidades de ingresso em aulas de teclado, violino, violão e guitarra, conforme a disponibilidade de horários.
A proposta é justamente permitir que o aluno comece do zero. Segundo Nilva, não é necessário ter conhecimento prévio do instrumento.
“A única regra que a gente tem é que o aluno tenha vontade de aprender. Ele tenha comprometimento com o projeto. Só isso”, explicou.
As atividades acontecem entre 14h e 20h, de modo a atender também estudantes que frequentam escolas de período integral.
A Casa da Cultura fica na Rua Elviro Mário Mancini, 592, no Centro de Três Lagoas, próximo ao quartel.
TRABALHO E RENDA
Além do impacto direto sobre os alunos, Nilva ressaltou que os projetos culturais também geram oportunidades profissionais para artistas e outros trabalhadores envolvidos nas atividades.
Professores de instrumentos, coordenadores, profissionais de produção, secretaria e outras funções participam da estrutura dos projetos.
“É uma geração de renda muito grande para as pessoas”, destacou.
A artista também falou sobre a importância da prestação de contas e da transparência na execução de projetos financiados por mecanismos de incentivo à cultura. Segundo ela, a responsabilidade na utilização dos recursos é fundamental para manter a credibilidade das iniciativas.
CULTURA QUE ALIMENTA
Durante a entrevista, Nilva revelou ainda uma parceria que, segundo ela, muitas pessoas em Três Lagoas desconhecem.
A Casa da Cultura participa de uma iniciativa da organização Comida Invisível, que permite o aproveitamento e a destinação de alimentos que seriam descartados.
Por meio da parceria, a instituição recebe produtos alimentícios e os utiliza para reforçar a alimentação oferecida aos alunos. Quando há excedente, os alimentos também podem ser destinados a outros projetos sociais.
Nilva citou como exemplo produtos recebidos por meio de uma parceria com o McDonald’s.
Segundo ela, a iniciativa já permitiu que alimentos fossem encaminhados para outros projetos que atendem crianças e comunidades em situação de vulnerabilidade.
“Essa comida é invisível para as outras pessoas, mas para quem recebe não é”, afirmou.
TRABALHO CONTÍNUO
Com novos projetos em análise e a perspectiva de ampliar as atividades, Nilva afirma que o planejamento da Casa da Cultura é permanente. Entre as possibilidades para o próximo ano está o retorno de um projeto de pintura e a implantação de novas iniciativas culturais.
Para ela, a Casa da Cultura ainda pode alcançar muito mais pessoas, especialmente aquelas que estão fora do centro e que têm menos acesso a atividades culturais.
A instituição também recebeu recentemente o reconhecimento como Utilidade Pública Estadual, por meio da Lei Estadual nº 6.627, além de já possuir reconhecimento municipal e o título de Ponto de Cultura.
Mas, na entrevista, Nilva deixou claro que o principal objetivo continua sendo o mesmo que motivou sua atuação na Casa da Cultura há mais de duas décadas: fazer com que a arte esteja ao alcance de quem, muitas vezes, não teria outra oportunidade de conhecê-la.
“É isso que nós temos que fazer: apoiar o jovem de uma maneira que ele se sinta seguro onde ele está”, resumiu.


