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Estar na Unidade de Terapia Intensiva é:

Geral – 19/04/2013 – 12:04

O progresso da medicina leva cada vez mais o homem, gravemente doente ou em recuperação cirúrgica, para a Unidade de Terapia Intensiva. Estar na UTI é assustador e, algumas vezes, traumático para doentes e familiares.

A ideia é que tomemos a UTI como paciente para diagnosticar algumas de suas regras.

O campo da UTI é composto por: médicos, enfermeiros, técnicos, faxineiros, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, nutricionistas, cozinheiros, copeiros, pacientes e familiares, farmacêuticos e, inclusive, o psicanalista.  E também por toda a tecnologia utilizada: protocolos, aparelhos, remédios, exames de laboratório e de imagem. 

Uma regra básica do campo da UTI está ligada à tentativa de separar a carne do corpo. Entende-se por carne a parte menos humanizada do corpo, quase sem vida, e por corpo, a parte mais ligada à identidade humana. É que para alguns procedimentos a equipe da UTI, em função da angústia causada por certas decisões, é levada a pensar o paciente como carne ou quase carne. Seria extremamente perturbador entender que há uma pessoa sofrendo um procedimento que poderá lhe garantir a vida, mas que é extremamente doloroso ou mesmo irreversível, como no caso de amputação. Assim, os médicos se apegam a condutas praticas e têm dificuldade em se relacionar com os pacientes e  familiares.

Outra regra do campo da UTI é a competição com a morte, que produz uma experiência de urgência. Embora a UTI não seja o pronto-socorro e os pacientes estejam entubados, estabilizados, talvez se recuperando de alguma cirurgia, impera um sentimento de urgência, como num “cabo de guerra”. A equipe e o Hospital estão do lado de cá, mas a Morte, sozinha e cadavérica puxa a corda para o outro lado e pode ganhar esse jogo tétrico. Sendo assim, ninguém tem tempo em UTIs, porque o tempo não é cronológico, é o tempo da vitória contra a Morte. Uma batalha constante.

Mais uma regra, a da assepsia impossível, que implica em tentar não se afetar por tudo que é excesso. O que não é regulado pela conduta ou protocolo sobra no campo da medicina. Tudo deve ser branco, limpo e asséptico, ninguém fala, há máquinas e muita tecnologia. A UTI parece um laboratório, mas, escutam-se gritos de desespero, vêm-se olhares de pedido de socorro, máquinas se desregulam causando alvoroço. Esses excessos afetam o paciente, que se impacta e se assusta.  Ele, o rato do laboratório. E a equipe pensa ser cientista de laboratório, acontece que na UTI todos estão como cobaias de um experimento muito importante!

 O teor deste texto foi retirado da apresentação feita por, Fernanda Sofio, em novembro de 2012, no XXIX Congresso da Federação Psicanalítica da América Latina. Por sua vez, esse texto foi produzido com base na dissertação de mestrado da autora, defendida na PUC-SP em 2007.

Fonte: Folha de São Paulo

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