João Dantas Filgueiras levou sete trabalhos à feira do IFMS, onde professores destacaram pesquisas sobre anabolizantes, estudantes trabalhadores e saúde como exemplos do protagonismo juvenil
A ciência desenvolvida dentro da escola pública ganhou destaque em Três Lagoas após a Escola Estadual João Dantas Filgueiras conquistar, pela primeira vez, três premiações na Feira de Ciência e Tecnologia do Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (FECITEL). A instituição participou do evento com sete projetos científicos elaborados por estudantes do Ensino Médio, em uma experiência que envolveu pesquisa, orientação dos professores e investigação de problemas presentes na realidade dos próprios alunos.
O resultado foi destaque no Jornal da Caçula, da Caçula FM 96,9, nesta sexta-feira, 09, durante entrevista com os professores José Ricardo Sampaio Souza, de Biologia, e Luiz Francisco Claudino, de História. Os educadores falaram sobre a preparação dos trabalhos, os desafios enfrentados pela escola e a importância de incentivar a iniciação científica na educação pública.
Segundo os professores, a proposta foi desenvolver pesquisas relacionadas a assuntos que despertam o interesse dos adolescentes e que fazem parte do cotidiano escolar. Entre os temas investigados estão os riscos do uso de anabolizantes, as condições enfrentadas por estudantes que trabalham enquanto frequentam o Ensino Médio e questões relacionadas à saúde pública.
PESQUISAS ABORDAM PROBLEMAS PRESENTES NA VIDA DOS ESTUDANTES
Um dos projetos que recebeu reconhecimento na feira investigou o uso de anabolizantes entre os jovens. A escolha do tema surgiu a partir de dúvidas que os próprios estudantes apresentavam diante de conteúdos publicados nas redes sociais e por influenciadores digitais, que frequentemente destacam os resultados estéticos dessas substâncias sem abordar de maneira suficiente os riscos à saúde.
Durante a entrevista, o professor Luiz Francisco explicou que uma das perguntas mais frequentes dos adolescentes é se o uso dessas substâncias faz mal e quanto tempo seria necessário para alcançar resultados físicos.

O educador ressaltou que a busca por mudanças rápidas no corpo pode levar os jovens a desconsiderar as possíveis consequências do uso inadequado de substâncias hormonais.
A proposta do trabalho foi incentivar uma análise crítica das informações consumidas na internet, mostrando a importância da orientação profissional e dos cuidados com a saúde, principalmente durante a adolescência.
Outro projeto premiado investigou a realidade dos estudantes do Ensino Médio que precisam trabalhar enquanto frequentam as aulas. A pesquisa procurou identificar as condições de trabalho desses jovens e os impactos sobre a rotina escolar, incluindo cansaço, dificuldades de concentração e atrasos nas primeiras aulas.
De acordo com José Ricardo, alguns alunos trabalham à noite, em estabelecimentos como pizzarias e restaurantes, e chegam à escola após poucas horas de descanso.
A partir do levantamento, os professores buscaram compreender como a instituição pode contribuir para a permanência e o desenvolvimento desses estudantes. O trabalho também abriu espaço para discutir oportunidades de inserção profissional formal, como a modalidade de jovem aprendiz.
SETE PROJETOS ENVOLVERAM ALUNOS DO ENSINO MÉDIO
A participação na FECITEL não se limitou aos trabalhos premiados. Ao todo, sete projetos foram apresentados pela escola, envolvendo diferentes turmas e temas de interesse dos estudantes.
Entre as pesquisas desenvolvidas também esteve um trabalho sobre HIV, que levou os alunos a conhecer o Centro de Testagem de Três Lagoas e a entrevistar uma médica infectologista responsável pelo atendimento. A investigação buscou compreender como o município acompanha e oferece assistência às pessoas que vivem com o vírus.
Outro assunto estudado foi o uso de cigarros eletrônicos, com análise de seus componentes e dos possíveis efeitos da nicotina no organismo.
Para José Ricardo, o processo de preparação exige tempo, organização e participação dos alunos desde as primeiras etapas. Segundo ele, o desenvolvimento dos projetos levou pelo menos dois bimestres, incluindo a escolha dos temas, a pesquisa, a seleção dos estudantes que apresentariam os trabalhos e a preparação para a exposição.
Os resultados também foram compartilhados dentro da própria escola, por meio de seminários, apresentações e atividades temáticas, ampliando o alcance do conhecimento produzido.
PROFESSORES DESTACAM APOIO DA GESTÃO ESCOLAR
Durante a entrevista, os educadores ressaltaram que o resultado também dependeu do envolvimento da gestão da Escola João Dantas Filgueiras, que auxiliou na busca por recursos e na organização necessária para a participação dos estudantes.
Entre as demandas estavam a produção de banners, o transporte até o local da feira e a alimentação dos participantes. Luiz Francisco destacou que o apoio institucional foi importante para transformar as propostas em projetos concretos e manter os estudantes motivados durante a preparação.

A participação também permitiu que os alunos tivessem contato com trabalhos de outras instituições, incluindo escolas particulares da região. Para os professores, a experiência demonstrou que estudantes da rede pública têm condições de desenvolver pesquisas relevantes e apresentar seus resultados em ambientes de produção científica.
INICIAÇÃO CIENTÍFICA FORTALECE O PROTAGONISMO JUVENIL
Os educadores também observaram mudanças no envolvimento dos estudantes durante o desenvolvimento das pesquisas. Segundo eles, os participantes demonstraram maior compromisso com prazos, atividades e apresentações, além de disposição para aprofundar os temas estudados.
A experiência, na avaliação dos professores, ajuda a ampliar a visão dos jovens sobre suas próprias capacidades e sobre as possibilidades de seguir estudando e ingressar no ensino superior.
A iniciativa ainda deve continuar nos próximos meses. A escola prepara novas atividades para uma programação relacionada à Consciência Negra, prevista para 12 de novembro, com um projeto de reciclagem e um desfile temático chamado “Do Lixo ao Luxo”.
Para o próximo ano letivo, a intenção é desenvolver novas pesquisas com temas que dialoguem com a realidade dos estudantes.
A conquista na FECITEL representa, assim, um marco para a Escola Estadual João Dantas Filgueiras. Mais do que as três premiações, a participação com sete trabalhos reforça o potencial da pesquisa científica como ferramenta de aprendizagem, transformação social e valorização da educação pública em Três Lagoas.


