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Três Lagoas
quarta-feira, 28 de janeiro, 2026

Com terços nas mãos e fé no coração, comunidade se une para pedir a volta do Mestre Armando

Comunidade reagiu com fé e mobilização, após transferência inesperada de figura histórica do Centro Juvenil da Vila Piloto

O silêncio que tomou conta do Centro Juvenil Jesus Adolescente, na Vila Piloto, não passou despercebido. A ausência de uma figura que, por mais de duas décadas, esteve presente diariamente entre crianças e jovens transformou o ambiente e comoveu toda Três Lagoas. Aos 87 anos, o salesiano Ir. Armando Catrana foi transferido para Campo Grande de forma inesperada, decisão que despertou dor, indignação e uma mobilização marcada pela fé.

A mudança ocorreu na quinta-feira, 22, mas só veio a público após nota oficial comunicando a transferência do local onde construiu praticamente toda a sua vida missionária, na segunda-feira, 26. Sem despedidas, sem comunicado antecipado à comunidade e sem tempo para assimilação, a transferência foi sentida como uma ruptura profunda.

O impacto foi percebido antes mesmo de qualquer explicação formal. Em entrevista ao ‘Café da Manhã’ da 96 Caçula, o educador e ex-oratoriano Leandro Dias relatou que só tomou conhecimento da mudança ao chegar ao Centro Juvenil para realizar a matrícula da filha. “Não havia nenhuma informação. Foi tudo muito abrupto, o que nos deixou extremamente consternados”, afirmou.

Leandro Dias, Leles Guilherme e Margareth Lopes em entrevista à 96 Caçula.

Segundo ele, a decisão ignora o vínculo afetivo entre o religioso e o projeto que ajudou a construir. Para Leandro, separar o mestre do espaço é romper a essência da missão. “O Centro Juvenil é o Armando e o Armando é o Centro Juvenil. Se você tira ele dali, você tira a vida do projeto.”

Mesmo com a idade avançada, Ir. Armando mantinha autonomia e convivência diária com os jovens. “Ele anda, conversa, participa. Tem lapsos de memória normais da idade, mas está bem. O que o mantém vivo é estar ali, ver os alunos chegando”, relatou o educador.

Diante da ausência repentina, a reação da comunidade seguiu os ensinamentos deixados pelo próprio salesiano. A resposta veio pela oração. “O terço sempre foi a força do mestre. Nos momentos difíceis ele rezava, então decidimos fazer o mesmo”, explicou.

Diante desta situação, ex-oratorianos, atuais e lideranças religiosas resolveram se unir para realizarem o “Terço pelo Retorno do Mestre Armando”, marcado para esta quinta-feira, 29, às 19h30, em frente ao Centro Juvenil Jesus Adolescente. O ato é aberto à população e possui caráter pacífico, espiritual e solidário.

A mobilização ganhou força rapidamente, em poucas horas, um grupo criado nas redes sociais reuniu mais de 200 participantes, incluindo ex-alunos que hoje vivem em outros municípios, estados e até fora do país, demonstrando a dimensão do legado deixado pelo religioso.

Entre os relatos mais emocionados está o da liderança comunitária Margareth Lopes, que acompanhou desde o início a implantação do projeto, ainda em 2002. Também em entrevista à Caçula, ela destacou que a falta de diálogo intensificou a dor da comunidade. “As pessoas perguntavam o que estava acontecendo, e ninguém sabia responder.”

Ela relembra que, à época, o espaço era apenas um terreno simples. “Onde hoje existe o Centro Juvenil havia uma mata. Foram muitas lutas e muitas orações até que tudo se tornasse realidade.”

Leles Guilherme e Leandro Dias, ex-oratorianos.

Margareth também recordou a construção da residência onde o religioso passou a viver, erguida por amigos italianos para que permanecesse próximo da comunidade. “Tudo foi feito para que ele estivesse perto da gente, com segurança, tranquilidade e amor.”

Convicta, a liderança acredita que a mobilização ainda pode trazer resultados. “Se depender da fé e da união da comunidade, o mestre Armando vai voltar.”

Mais do que um pedido administrativo, o movimento representa um gesto coletivo de reconhecimento. Para a Vila Piloto, Ir. Armando Catrana não é apenas um religioso transferido, é pai espiritual, educador e parte viva da identidade do bairro.

Em Três Lagoas, sua história permanece gravada na memória de gerações que aprenderam, com ele, que educar é estar presente e amar é doar a própria vida.

Texto de Gabriela Rufino, para a 96 Caçula.

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