Geral – 23/01/2012 – 12:01
Airton Carvalho Maciel, comandante do barco Imagination, que naufragou no Lago Paranoá, no Distrito Federal, falou pela primeira vez com a imprensa sobre as circunstâncias do acidente que matou nove pessoas em 22 de maio de 2011. Junto com o dono da embarcação, Maciel foi um dos indiciados pela polícia por homicídio culposo (quando não há intenção de matar). A entrevista exclusiva foi concedida à TV Globo.
A equipe de reportagem tentou entrevistar o dono do barco Imagination, Marlon José de Almeida, mas ele não atendeu os telefonemas. O advogado dele chegou a ser informado da reportagem, mas também não deu informações ou retorno sobre o caso.
Para a perícia da Polícia Civil, o naufrágio foi causado pela entrada de água nos flutuantes, estruturas também chamadas de tubulões, que garantem a sustentação do barco. Na entrevista, o comandante disse que a necessidade de troca dos tubulões não foi indicada em vistoria.
“O que realmente deveria ter sido feito era a troca dos tubulões, que o engenheiro viesse e mostrasse que aqueles tubulões que a gente usava no barco não eram os tubulões que deveriam estar navegando. Eles teriam que ter sido vistoriados mais rigorosamente. Isso não foi feito”, afirma.
O Imagination, contou o piloto, chegava a fazer 30 festas por mês e era alvo de piadas sobre suas condições. “Não passou pela cabeça de ninguém que aquele barco poderia afundar um dia. Sempre tinha a brincadeira de um ou outro, falando que o barco não prestava, que o barco iria afundar, mas eu não achava que era nada que impedisse a navegação.”
Ele confirmou que a embarcação passou por modificações arquitetônicas, como indicado pelo laudo da perícia da Polícia Civil. Uma das mudanças foi a colocação de vidros. A instalação de novos tubulões teria sido uma das providências tomadas para garantir navegabilidade e compensar as alterações.
“Foram instalados mais quatro tubulões, dois na proa e mais dois na popa. Quer dizer, além do que foi liberado pelo engenheiro, a gente colocou quatro a mais, para ganhar mais flutuabilidade. Foram instalados blindex (vidros) para não molhar os passageiros em dias de chuva, mas o que foi acrescentado, pelo cálculo da pessoa que instalou o blindex, retiramos em algum outro peso”, disse o comandante.
Número de embarcados
As investigações da polícia indicaram que, além da falta de manutenção, contribuiu para o acidente a superlotação. Conforme o delegado responsável pelo caso, Adval Cardoso, o Imagination tinha capacidade para 92 pessoas, mas, no momento do acidente, 122 estavam embarcadas – 30 acima do limite.
O piloto, responsável por controlar a entrada de pessoas, disse que encerrou o embarque com o número dentro do limite. “Até o momento que eu estava com a lista [de passageiros], tinha 11 pessoas trabalhando e mais 79 pessoas que embarcaram. Fechei as portas e avisei a dona da festa e o seu Marlon [dono do barco], que estava no cais. Não sei como apareceram essas pessoas a mais no barco, não sei dizer como.”
Na hora do acidente
O comandante do Imagination contou que percebeu problemas na navegação quando viu que a embarcação estava adernando. Nesse momento, ele disse que orientou a distribuição das pessoas no barco. “Orientei algumas pessoa da festa que eu mais conhecia para que falassem com os convidados para que dividissem o peso, não ficassem acumulados numa parte só do barco.”
Segundo Maciel, ele foi até a casa de máquinas da embarcação e não encontrou água numa primeira vistoria. A primeira queda de energia, minutos depois, foi a confirmação de que algo estava errado com o Imagination.
“Desci correndo e observei que tinha água na casa de máquina. Não tinha com grande excesso, mas tinha um volume que eu não deixaria. Liguei as bombas e esgotou a água. Fui para a parte externa do barco, no passadiço. Quando eu estava conversando com piloto da lancha [lancha que se aproximou do barco e ajudou no resgate de vítimas], o garçom Adenilton [um dos nove mortos no acidente] me chamou e mostrou que a água já estava invadindo o passadiço, já estava nos meus pés”, relembra.
O comandante contou que tentou ajudar o máximo de pessoas. “Corri para pegar o volante e encalhar o barco, mas não deu tempo. Quando botei os pés na cozinha, a água subiu muito rápido. Aí só deu tempo de entrar, pegar alguns coletes que eu conseguia ver e tirar o máximo de pessoa de dentro do barco. Foi o que eu fiz, fiquei lá dentro, tirando todo mundo.”
Por pouco, ele não foi mais uma das vítimas fatais do naufrágio. “Fiquei preso dentro do barco com a água na altura do pescoço, não conseguia abrir mais as portas. Estava tudo escuro e a água subindo, subindo. Meio que desesperei, mergulhei, dava socos, fiz tudo para tentar quebrar aqueles vidros e sair dali. As pessoas já estavam na frente do barco, todas praticamente livres, com colete na mão. Eu estava com alguns coletes também, mas preso dentro do barco. Depois de um tempo, o barco desceu, aí o vidro estourou e eu consegui sair, já sem fôlego nenhum.”
Airton Maciel, que trabalhava há 14 anos com navegação, desde o acidente ainda não voltou a pilotar. “Eu sempre gostei muito de estar dentro da água, eu nada praticamente todo dia. Agora, em algumas situações, tenho medo. Na primeira semana depois do acidente eu não dormi. Hoje, frequentemente acordo pensando no acidente.”
Fonte: Stephanie Alves Da TV Globo


